Pense bem, leitor: quando foi a última vez que você se sentiu irritado e mesmo ofendido por um filme? Já se sentiu indignado a ponto de querer pedir seu dinheiro de volta na bilheteria ou de desejar cancelar a assinatura de um serviço de streaming? Há 30 anos, um filme provocou reações extremas como essas, cada vez mais raras na arte: Foi Crash: Estranhos Prazeres (1996), do cientista louco do cinema David Cronenberg.

Vamos relembrar: no Festival de Cannes de 1996, o filme foi vaiado por muitos na plateia após a sua exibição. Cronenberg e elenco deram respostas um pouco insolentes aos jornalistas na coletiva de imprensa. A coisa toda virou um bafafá, mas o filme cresceu: embora Crash não tenha ganho a Palma de Ouro, recebeu um prêmio especial do Júri, por “originalidade e ousadia”, e até hoje, segundo relatos, essa honraria então inédita foi concedida contra a vontade do presidente do júri daquela edição, ninguém menos que Francis Ford Coppola.

Nos meses seguintes a controvérsia continuou, com personalidades criticando o filme pelas cenas de sexo e alertando para o fato de que as pessoas poderiam tentar imitar o comportamento dos personagens na tela, colocando suas vidas em risco. Na Inglaterra, quiseram censurá-lo. Nos Estados Unidos, ele recebeu a temida classificação etária NC-17, o que imediatamente desperta a noção de um filme praticamente pornográfico.

E, claro, leitor, não estou falando daquele outro Crash, aquele que recebeu o subtítulo No Limite (2005) no Brasil. Aquela isca de Oscar ganhou o careca dourado, mas hoje é mais lembrado como um dos maiores erros da história da Academia. Embora penso que Cronenberg deve se divertir até hoje com a ideia de alguém dando “play” no filme dele, achando se tratar do drama oscarizado…

Qual a razão da polêmica? Crash é a adaptação de Cronenberg – além de diretor, ele é também roteirista e produtor – do livro “Crash”, também controverso, do autor J. G. Ballard, publicado em 1973. É sobre um grupo de pessoas que sentem prazer sexual em acidentes de carros: eles transformam em fetiche colisões que vitimaram pessoas famosas, e na busca por excitação cada vez maior, se envolvem em situações perigosas.

Na adaptação de Cronenberg, acompanhamos um casal em Toronto, James Ballard (vivido por James Spader) e sua esposa Catherine (Deborah Kara Unger). Os dois vivem um casamento aberto e parecem existir em um estado de completo tédio existencial capitalista: eles falam baixinho e têm aventuras sexuais com outros parceiros. Um dia, James bate com seu carro de frente no da doutora Helen Remington (Holly Hunter), e uma conexão sexual é estabelecida de cara entre eles no momento do acidente. Não demora muito e os dois têm um caso e conhecem outras pessoas com fetiche por acidentes automobilísticos, dentre eles o estranho Vaughn (Elias Koteas).

É interessante notar o fascínio de Cronenberg por carros. Quando se pesquisa sua vida e filmografia, lembramos que ele fez um filme de ação com corridas lá no inicio da carreira, Fast Company (1979), que destoa dos seus temas habituais. Ele também disse numa entrevista que a primeira coisa que acabou filmando, por acaso, quando ganhou uma câmera Super-8 do pai, foi um acidente automobilístico, que acabou sendo fatal.

Uma das primeiras imagens de Crash mostra o seio de uma bela mulher encostando na superfície fria de metal de uma máquina, no caso um avião pequeno. Algumas imagens específicas acabam sendo muito representativas da carreira de alguns diretores: essa acaba sendo tão emblemática do cinema de Cronenberg quanto a cabeça explodindo em Scanners (1981), ou os momentos nojentos de A Mosca (1986). É a carne encontrando a tecnologia, o interesse principal do cineasta, o qual ele soube abordar de diferentes formas ao longo das décadas.

E aí vem o pulo do gato do filme: a câmera fria e clinica de Cronenberg (junto com seu diretor de fotografia Peter Suschitzky) tem uma abordagem quase médica. É a fotografia, aliás, que injeta no filme uma sensualidade fria, e a trilha sonora com guitarras elétricas de Howard Shore também contribui para essa atmosfera alienante. Enfim, a câmera não julga, só apresenta, e os personagens é que vão manifestando as temáticas do diretor. A intenção de Vaughn, seu “projeto”, é “a reformulação do corpo humano por meio da tecnologia”, o que poderia muito bem ser um resumo de Wikipedia da filmografia do diretor. Ele e seu grupo formam uma sociedade secreta, incluindo a personagem de Rosana Arquette, que tem o corpo deformado pelos acidentes de carro, com uma enorme cicatriz em forma de vagina numa das pernas.

Tem muitas cenas de sexo em Crash, mas quase nenhum prazer de verdade sentido pelos personagens. É aqui que o diretor leva sua abordagem até as ultimas consequências: como não “sentimos empatia” de verdade por ninguém no filme, ou o espectador rejeita tudo ou começa a se projetar ali. Adicionando ao ato subversivo do filme, Cronenberg se recusa a retratar a transformação dos seus personagens como algo ruim. Vaughn diz a James que “está acontecendo uma psicopatologia benéfica aqui”, o que encontra eco em outros filmes do cineasta. Nola em Os Filhos do Medo (1979) e Brundle em A Mosca também achavam positivas as mudanças em seus corpos em seus respectivos filmes. E duas mulheres ao final têm um desfecho feliz na história, algo raro em obras do diretor que geralmente acabam em tragédia.

E o sexo se confunde com a morte: poucos filmes retrataram de maneira tão literal a fusão de Eros com Tânatos, a pulsão da vida com o desejo de morte, quando Crash. Os personagens se sentem mortos por dentro, e só um evento extremo como uma colisão consegue devolver-lhes a vida, ainda que de forma temporária.

No entanto, Crash continua perturbador para além das cenas de sexo e proximidade com a morte. Como todo grande artista, Cronenberg viu para onde o mundo estava indo. Hoje, assistir a Crash é uma experiência ainda mais forte do que foi em 1996. Ora, hoje vivemos num mundo ainda mais tecnológico, onde as pessoas buscam dopamina rolando de maneira incessante os feeds das redes sociais, onde tem quem se apaixone – e queira fazer sexo – com IAs, e paradoxalmente muitos continuam isolados e sozinhos, ansiando pela boa e velha conexão humana, muitas vezes sem conseguir. Nesse contexto, ver James e Catherine sempre em busca do próximo prazer – “Talvez na próxima, querida” – não parece mais algo tão alienígena. É só olharmos no espelho, e a grande arte geralmente serve a essa função.

Crash permanece uma obra polêmica e até hoje provoca reações inusitadas: na rede social Letterboxd, ainda há quem o descreva como “um pornô sem história”.  Em todo caso, continua um filme “ame ou odeie”, do jeito que seu diretor sempre pretendeu. É uma obra de coração frio que colide com o espectador, e como um acidente de carro na vida real, é difícil tirar os olhos dele, por mais ultrajado que se fique.