Poucos personagens dos quadrinhos oferecem tantas possibilidades de reinvenção quanto o Homem-Aranha. Em Spider-Noir, a Amazon MGM Studios aposta justamente em uma das versões mais intrigantes do herói, transportando o público para um universo inspirado pelo cinema noir clássico, marcado por corrupção, violência, mistérios e uma atmosfera melancólica. Liderada por Nicolas Cage, a série propõe um olhar inédito sobre o vigilante mascarado ao acompanhar um herói mais velho, desgastado pelos anos de combate ao crime e confrontado pelos fantasmas de seu próprio passado.
Em meio ao universo sombrio e estilizado de Spider-Noir, Robbie Robertson surge como muito mais do que um simples jornalista. Interpretado por Lamorne Morris, o personagem acredita que informar a sociedade é uma forma de heroísmo tão importante quanto combater o crime nas ruas. Na entrevista ao Cine Set, o ator comenta a fé inabalável de Robbie na humanidade, sua relação com o Homem-Aranha e como essa visão o transforma em uma espécie de consciência moral dentro da série.
Se Robbie representa a força da informação, Janet encontra sua motivação nos laços humanos e na busca pela verdade. Karen Rodriguez fala sobre a personagem, que enfrenta corrupção, ameaças e dificuldades financeiras sem abrir mão de seus princípios. Para a atriz, a amizade e a curiosidade investigativa são elementos fundamentais para compreender uma mulher que insiste em ocupar espaços que o mundo insiste em negar a ela.
Já Li Jun Li mergulha nos mistérios de Cat Hardy, personagem que carrega toda a tradição das clássicas femme fatales do cinema noir. A atriz comenta a construção de uma figura marcada pela ambiguidade, pelo magnetismo e por uma presença que parece transcender o tempo. Além disso, os três atores compartilham suas experiências ao lado de Nicolas Cage e explicam por que assistir à série tanto em preto e branco quanto em cores oferece duas experiências completamente distintas ao público.
Cine Set – Qual a característica de Robbie Robertson que você considera essencial para ele conseguir sobreviver com integridade em um ambiente tão difícil como a Nova York da série?
Lamorne Morris – A questão mais complicada é justamente entender como e por quê. Acho que ele tem uma fé enorme na humanidade. Num mundo em que existem super-heróis de verdade — e em que o seu melhor amigo é um deles —, quando esse amigo começa a hesitar, sem saber se ainda quer assumir esse papel, ele acaba levando uma bronca. Porque essa visão não faz sentido para ele.
Ele acredita de verdade na ideia de que, se você tem um poder, também tem uma responsabilidade. É aquela velha máxima: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. E ele leva isso muito a sério.
Mas o interessante é que ele não se vê como alguém sem poderes. Para ele, sua capacidade de informar as pessoas é justamente o seu superpoder. É assim que ele contribui. Ele acredita no valor disso e respeita profundamente essa missão. Porque as pessoas podem precisar de heróis, mas, se o herói está acomodado ou deixando de cumprir seu papel, então saia da frente e deixe que eu faça o meu trabalho para dar às pessoas as informações de que elas precisam.
No fim das contas, ele acredita que qualquer um pode ser um herói. Você pode simplesmente sorrir para alguém na rua e nem imaginar o impacto que esse gesto terá no dia daquela pessoa. Para ele, heroísmo não está apenas nos grandes atos; está também nas pequenas ações que podem mudar a vida de alguém.
Cine Set – Homem-Aranha já teve 8 live-actions solo, participação em Vingadores, duas animações do Aranhaverso. Diante de tudo isso, o que você acha que Spider Noir traz de mais diferente para o universo do herói?
Lamorne Morris – Além do fato de termos Nicolas Cage interpretando esse combatente, existe outra diferença importante. Em praticamente todas as versões do Homem-Aranha que conhecemos, estamos acompanhando um garoto, muitas vezes ainda na adolescência, tentando descobrir quem ele é. Ele tem a vida inteira pela frente e está tomando decisões em tempo real: será que quer mesmo se tornar um super-herói?
Na nossa versão, a pergunta é outra. Nós mostramos o que acontece quando alguém já está cansado de tudo isso. Quando essa pessoa já fez o trabalho, já salvou a cidade durante anos e agora carrega o peso das perdas, da dor, da angústia e do sofrimento.
Então a questão passa a ser: como vestir a capa novamente? Como colocar a máscara outra vez? Como voltar a salvar o dia quando isso já se tornou a sua profissão, quando você faz isso há tanto tempo?
Acho que os fãs vão se divertir muito vendo essa versão diferente do Aranha, porque ela apresenta uma variação do personagem que, literalmente, nunca vimos antes.
Cine Set – Janet não tem vida fácil em Spider Noir: é ameaçada, lida com corruptos e ainda não recebe salário. O que você considera que a mantém ali?
Karen Rodriguez – Acho que amizade tem muito a ver com encontrar as suas pessoas, aquelas que permitem que você seja quem realmente é, que te dão espaço para existir de forma plena. Especialmente em um mundo que, muitas vezes, tenta dizer que você não deveria ser assim ou que não pode ser assim. Isso é algo muito poderoso.
Eu tenho amizades desse tipo na minha vida e sei o quanto elas são importantes. Por isso, quando você encontra pessoas assim, precisa mantê-las por perto e cuidar delas.
No caso dela, essa amizade também se conecta ao trabalho investigativo. Ela é uma pessoa extremamente curiosa. Como a própria personagem diz na série, sem isso provavelmente estaria trabalhando como vendedora, porque essas eram as opções que ela tinha.
Então, não, essa amizade não é apenas importante. Ela é essencial. É uma função essencial, uma posição essencial e uma amizade essencial.
Cine Set – Gostaria que você falasse como é atuar ao lado de uma lenda como Nicolas Cage. Trabalhando com ele, o que você acha que o torna este ator tão popular?
Karen Rodriguez – O público se conecta com isso porque ele está completamente livre. Não necessariamente sendo ele mesmo, mas seguindo a própria interpretação do personagem sem amarras. Ele não está preocupado com o que as pessoas vão pensar. Está preocupado com o trabalho.
E existe algo muito fascinante nessa liberdade de expressão, nessa disposição de explorar os limites da condição humana. É emocionante assistir a alguém assim. Porque, sinceramente, eu mesma sinto ansiedade o tempo todo. Penso: “E se eu disser algo errado? E se as pessoas interpretarem de outra forma?”. Ele não. Ele é livre.
E essa é uma das funções do artista. Ter coragem para se expor dessa maneira. Você sente isso quando trabalha com ele também. É impressionante. Eu lia uma cena antes e pensava: “Ok, acho que isso vai acontecer dessa forma”. Mas então ele surgia com algo completamente original. Completamente próprio. E sem medo de mostrar isso para os outros.
Isso é muito raro, especialmente entre artistas. E acompanhar esse processo é emocionante, libertador e também assustador. Assustador no melhor sentido. Você se sente em uma montanha-russa sem saber para onde está indo e simplesmente precisa confiar.
Sem nunca me pedir isso diretamente, ele me ensinou a confiar. E isso é algo difícil para mim. Eu sou do tipo que quer saber exatamente para onde estamos indo o tempo todo. Mas trabalhar com ele acaba sendo uma verdadeira aula sobre se desapegar do controle, se permitir experimentar e, acima de tudo, se divertir no processo.
Cine Set – Gostaria que você falasse sobre a sua primeira cena na série. É um momento incrível e fundamental para a gente ficar fascinado por Cat Hardy. Como foi gravar este momento e o que era mais importante para você?
Li Jun Li – Uma das coisas que mais me interessou foi trabalhar essa ideia de que, embora a série se passe em uma versão mais moderna do mundo, ela ainda preserva uma atmosfera clássica. Existe uma mistura entre inovação e algo que remete ao passado, especialmente por causa daquela oscilação constante presente na sequência.
Para mim, isso cria uma sensação muito interessante. Você nunca tem certeza absoluta do que está vendo, como se não soubesse se aquilo está realmente acontecendo ou não. Existe uma ambiguidade que acompanha toda a experiência.
E então chega aquele momento em que você percebe que algo começou a mudar, que as peças estão começando a se encaixar e que aquela é, de fato, a primeira etapa de uma jornada maior.
Foi um conceito muito rico de explorar e algo com que trabalhamos bastante ao longo do processo.
Cine Set – Femme Fatales são personagens clássicas do noir. Qual característica deste tipo de personagem foi fundamental para fazer Cat Hardy?
Li Jun Li – Queria que Cat carregasse isso dentro de si o tempo todo. Queria que essa presença fosse algo físico, palpável, e não apenas uma sensação distante. Para mim, quando alguém realmente acredita em algo ou em alguém, essa presença nunca desaparece por completo.
Então, uma das minhas principais preocupações era garantir que isso estivesse claro ao longo da história. Depois disso, o mais importante era entender como essa ideia se conectava ao conceito maior da personagem e ao que ela representa dentro da narrativa.
Cine Set – Para fechar, na dúvida, qual seria sua opção: Spider Noir em preto e branco ou colorido? O que estas duas possibilidades trazem de diferença de experiência?
Lamorne Morris –Você precisa assistir primeiro em preto e branco e depois ver a versão colorida. Quando assiste em cores, percebe detalhes da série que nem imaginava que estavam lá.
O trabalho do figurino e do design de produção foi tão bem-feito que vale muito a pena conferir as duas versões. O senso de moda, o estilo visual, todos esses elementos ganham uma dimensão completamente nova quando aparecem em cores. É realmente algo que merece ser visto.
Karen Rodriguez – Recomendaria assistir primeiro à versão em preto e branco do começo ao fim. Não fique alternando entre as duas versões. Veja tudo em preto e branco e, só depois, volte para assistir em cores. Fazendo isso, você terá uma experiência completamente diferente. Vai perceber elementos da série de outra forma e sentir nuances que talvez passassem despercebidas se alternasse entre as versões. É realmente uma experiência distinta quando você segue esse caminho.
Li Jun Li – Também recomendo preto e branco primeiro e, depois, voltar tudo para ver colorido. Pensei que seria uma fã incondicional da versão em P&B, mas, enquanto filmava, eu vi as cores, texturas, cenários e até a maquiagem. A quantidade de atenção aos detalhes, o esforço e o amor que todos dedicaram a isso te faz ver de forma diferente. A luz – sem trocadilhos – é uma experiência completamente diferente porque estamos acostumados a ver tudo em cores, mas, quando se vê em preto e branco no filme, há o lado artístico e todo o esforço para fazê-lo. No colorido, porém, seus sentidos visuais são estimulados de outra maneira, permitindo que capte elementos diferentes da história.
















