Houve uma época, caro leitor, em que o Supercine da Rede Globo passava, sempre aos sábados à noite, filmes de suspense genéricos com tramas sensacionalistas. Geralmente eram filmes estadunidenses feitos para a televisão, mas de vez em quando uma produção famosa de Hollywood que se encaixava no padrão também passava. Pessoalmente, acho que muitos espectadores brasileiros hoje têm na mente o que significa um filme “do tipo Supercine”, por causa disso. Basta mencionar a expressão que muitas vezes o significado fica evidente.
A minissérie Eu Vou Te Encontrar, da Netflix, é um “filme Supercine” esticado por oito episódios. É uma história feita para agradar ao espectador médio, com boa dose de sensacionalismo e reviravoltas. Aliás, muitas reviravoltas… No passado, esse tipo de atração era modesta, feita para ser descartável, o “filme da semana”. A tecnologia mudou, mas elas continuam a prosperar no streaming, agora contando com atores de destaque em Hollywood e com bons valores de produção, como o público atual exige. Mas se Eu Vou Te Encontrar fosse um filme de duas horas, poderia perfeitamente ter passado no Supercine nos velhos tempos das sessões de fim de noite da TV aberta.
Baseado em livro do autor Harlan Coben, um dos destaques do gênero suspense na atualidade e grande nome da literatura de aeroporto, a minissérie conta a história de David Borroughs, um pai de família que foi condenado à prisão perpétua por matar o próprio filho com toques de crueldade. Depois de cinco anos preso, sua ex-cunhada descobre evidência de que o filho de David pode estar vivo. Ele então resolve fugir da prisão e embarca numa corrida para descobrir o paradeiro do menino, enquanto é perseguido pela polícia.
Obras de Coben inclusive já tiveram outras adaptações para a Netflix antes. Esta minissérie do produtor Robert Hull deixa claras algumas coisas logo nos 15 minutos iniciais do primeiro episódio, então isso nem se qualifica como spoiler: David é inocente – o velho clichê do “condenado por um crime que não cometeu” – e seu garoto foi vítima de uma… lá vai… conspiração! Ou seja, uma boa dose de drama da história é jogada fora logo de cara pelos produtores e roteiristas, que deixam o espectador, no fim das contas, assistindo a uma história que já foi contada várias vezes no cinema e na TV.
É a correria que importa aqui, e não caracterização ou narrativa complexa e envolvente. Mas uma coisa é preciso admitir: a correria evita que Eu Vou Te Encontrar se torne enfadonha. Clichê e sem graça, sim; mas chata ela não é. Os dois primeiros episódios são comandados por Brad Anderson, que num passado já remoto fez filmes interessantes como Sessão 9 (2001) e O Operário (2004), com Christian Bale. Esses episódios estabelecem o tom, com cenas de ação inegavelmente bem filmadas.
Em meio à ação, acompanhamos nosso protagonista e seus aliados – sim, porque logo aparece um monte deles – indo atrás de pistas do menino desaparecido, e temos perseguições e tiros. Depois surgem uns mafiosos e até uma clínica reprodutiva sinistra se envolve na investigação de David. A história vai se tornando tão rocambolesca e improvável que acaba trazendo um senso de diversão ao espectador, e a curta duração dos episódios – entre 30 e 40 minutos – ajuda nisso também.
O elenco também ajuda, embora Sam Worthington, de Avatar (2009), seja muito sem sal como David: o protagonista passa todos os episódios com a mesma cara, e o ator continua cada vez mais um buraco negro de carisma e presença. Felizmente, os coadjuvantes têm mais vida: Chi McBride e Logan Browning têm uma boa química como os agentes do FBI – pai e filha – que embarcam na caçada a David; e Britt Lower, da série Ruptura da Apple TV, se sai como a melhor do elenco, de longe, e a única capaz de imbuir de humanidade a sua personagem genérica, a jornalista obstinada.
A série ainda traz outros dois coadjuvantes de peso, o eterno coadjuvante/antagonista de Hollywood, Clancy Brown, e a eterna musa dos anos 1990 Madeleine Stowe fazendo os vilões, obviamente – por que de que adiantaria contratá-los, se não for para colocá-los com destaque e relativa surpresa na história? Assim que eles aparecem, o espectador já saca que eles serão os malvadões.
Realmente, não há muitas surpresas em Eu Vou Te Encontrar, e talvez o seu público a prefira assim. É uma atração típica do streaming, feita para ser consumida e depois esquecida, mas enquanto está rolando, proporciona um entretenimento confortável e sem riscos. É verdade que a TV e o streaming se sofisticaram muito nas últimas décadas: é só comparar esta minissérie com Task: Unidade Especial da HBO, que contou uma história com elementos parecidos – crimes, perseguição do FBI, laços familiares – no ano passado. Ao contrário de Eu Vou Te Encontrar, Task se concentrava mais nos personagens e no mundo no qual viviam, apresentado de forma orgânica e vivaz, e nem tanto na trama. Aquela série não se focava numa grande reviravolta por episódio para chocar o espectador. E quando elas ocorriam, faziam sentido dentro da narrativa.
Verdade, Task não tinha tanta ação quanto a atração da Netflix. Mas é uma série que, pelas suas qualidades, ficava na memória e conseguia ser mais do que um entretenimento descartável. De fato, não se pode exigir que toda obra audiovisual – ou “conteúdo”, para usar o jargão de hoje – seja sofisticada. O padrão “Supercine” segue vivo porque muita gente gosta.
Ainda assim… de vez em quando no sábado à noite passava um filme um pouco melhor.















