Há muito tempo, numa galáxia distante… O cineasta finlandês Renny Harlin, que fez carreira em Hollywood, dirigiu Duro de Matar 2 (1990), um filme de ação muito bacana e continuação digna do clássico original – é aquele em que Bruce Willis enfrenta terroristas em um aeroporto. Aquele filme tem uma cena de desastre aéreo que ainda hoje impressiona.

Anos depois, Harlin dirigiu o também bacana Do Fundo do Mar (1999), um trashzão divertido que reciclava Jurassic Park (1993) trocando os dinossauros por tubarões inteligentes. É outro filme que dá para se ver comendo pipoca, e que hoje é mais lembrado pela hilariante cena de morte do personagem de Samuel L. Jackson.

Agora, em 2026, Harlin combina duas das melhores coisas que já fez – desastre aéreo e suspense com tubarões – e o resultado é este Águas Mortais. Infelizmente, a aritmética do cinema não é exata, e a soma de duas coisas boas acabaram agora resultando em algo muito, mas muito ruim. É o que acontece quando um diretor em fim de carreira se junta com um ator principal que também está na decadência, o Aaron Eckhart – o cara esteve em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), um dos blockbusters mais marcantes das ultimas décadas, e hoje está aqui pagando as contas num filme onde tudo é clichê, incluindo o seu personagem.

Eckhart interpreta Ben, co-piloto de uma companhia aérea que já viveu dias melhores (Hmm…). Um incidente do passado fez com que ele perdesse sua chance de pilotar e hoje ele se vira para sustentar esposa e filhos. Ele e seu comandante Rich (Ben Kingsley, outro que está pagando os boletos do mês) vão pilotar um longo voo de Los Angeles a Xangai. A tripulação é diversa – tem americanos, ingleses, chineses, como convém hoje em dia a uma produção globalizada e financiada por fundos internacionais. Mas o voo sofre um acidente e o comandante é forçado a pousar no meio do oceano. Enquanto aguardam o resgate, Ben acaba assumindo uma posição de liderança, e junto com os passageiros, vai ter que enfrentar um perigo a mais: tubarões famintos.

A cena da queda do avião é, sem muitas surpresas, a melhor do filme e a que deve ter consumido quase todo o orçamento. Harlin, verdade seja dita, consegue encenar um caos até envolvente, mostrando primeiro os danos na área de carga, depois o pânico dos passageiros, e consegue nos faz entender as manobras de Rich e Ben para tentar pousar a aeronave em segurança. A montagem e o trabalho sonoro criam um momento que não chega a causar grande tensão, mas é bem encenado.

Depois que o avião cai, no entanto, o que resta ao filme é o puro tédio. Não se acredita, nem por um momento, que os personagens estão de fato no meio do oceano: tudo é encenado dentro de um tanque óbvio, em frente ao chroma-key. E quando a história transiciona da noite para o dia, a computação gráfica vai ficando pior e mais falsa, especialmente em alguns dos ataques dos tubarões.

Os quatro roteiristas da produção não conseguem pensar em nada melhor, em termos de coadjuvantes, do que fazer uma referência a um filme antigo de desastre – O Destino do Poseidon (1972) – e criar figuras estereotípicas, como a menininha prodígio, um casal que não assume seus sentimentos, outro casal animado que se esconde para transar no banheiro do avião pouco antes do desastre, e, claro, o sujeito egoísta e insuportável que acaba sendo o responsável pela queda do avião, e o espectador mal pode esperar para vê-lo sendo comido. Pelo menos aqui o filme é coerente e este personagem é norte-americano… Obviamente, dá para se adivinhar quem vai viver e quem vai morrer com poucos minutos de filme.

Como resultado, todos os momentos em que o filme tenta ficar mais dramático ou sério não funcionam, e quando o longa se foca no suspense ele também não funciona, porque o espectador não se importa com nenhum dos personagens e tudo que Águas Mortais mostra, o fã do gênero já viu melhor em outros exemplares. O longa de Harlin não faz nenhum esforço para trazer algo novo ou sair da zona confortável dos clichês. É um filme que não consegue nem ganhar pontos pelo esforço.

O maior problema de Águas Mortais nem é o fato de ser ruim – embora seja – mas sim de ser um longa cansado, típico produto da indústria cinematográfica atual com seu aspecto de filme “direto para o streaming”, sua vontade mercantilista de atender a todas as faixas demográficas, e com sua lista telefônica de produtores e produtores-executivos. 

Duro de Matar 2 e Do Fundo do Mar não eram, obviamente, obras-primas do cinema, mas ao menos se sente neles um senso de diversão, uma vontade de engajar o espectador que falta neste aqui. Até a ideia de misturar desastre aéreo com tubarões já tinha sido feita há pouco tempo em Desespero Profundo (2024), que também era ruim, mas ainda conseguia ser melhor que Águas Mortais. Acima de tudo, o longa comete o erro de, mesmo com sua premissa, se levar a sério demais. Faz falta uma cena como a do Samuel L. Jackson aqui.