A Mostra Competitiva Nacional de Longas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deu a largada oficialmente no sábado, 12 de setembro, com a exibição da animação “Ana, En Passant”. Misturando diferentes estilos de animação, o filme conta a história de Ana, uma franco-brasileira que, depois da morte da avó, sai de Paris rumo a Belo Horizonte seguindo pistas deixadas pela avó. Lá, ela encontra Alice, uma mulher muito parecida com ela mesma e, a partir daí, ambas tentam desvendar o que as une no mundo.

O elenco é encabeçado por Jéssica Pierina, e conta ainda com grandes nomes do cinema brasileiro, como Zezé Motta e Carlos Francisco. A direção e o roteiro são assinados por Fernanda Salgado, cineasta e pesquisadora de Belo Horizonte, cofundadora do Apiário Estúdio Criativo. O Cine Set conversou com Fernanda durante o festival sobre o processo de criação do filme, questões de memória e ancestralidade e o que vem pela frente para o longa. Confira a entrevista a seguir.

“Ana, En Passant” foi lançado no Festival de Brasília 2026. Foto: Michelle Moreira/Festival de Brasília

Cine Set – “Ana, En Passant” reúne vários estilos e técnicas de animação, que aparecem misturados ao longo do filme. Queria que você comentasse um pouco de onde surgiu essa ideia de fazer essa espécie de “miscelânea” de técnicas e como foi esse processo.

Fernanda Salgado – Essa proposta visual de fazer uma justaposição de técnicas de animação veio desde 2018, no desenvolvimento do projeto. Na verdade, veio quando a gente começou a pensar sobre o que seria o filme. Essa proposta foi testada na etapa de desenvolvimento, quando fizemos o teaser.

A rotoscopia vem muito por causa de um uso anterior que a gente já tinha feito num curta-metragem. Então, quisemos retornar a essa técnica que tinha funcionado tão bem e de que a gente gostava tanto.

As outras técnicas vêm muito de um desejo de misturar técnicas analógicas e digitais. Como estúdio criativo, a gente, na Apiário, tem uma preferência estética por um uso que vai justamente no contrário do minimalismo, de uma profusão de texturas e imagens. Então, quisemos testar isso em “Ana” e entender como funcionaria dentro da história, como seria um uso que justificasse também essa proposta visual e que coadunasse com a narrativa e os temas.

Quisemos mostrar mesmo as texturas, os rasgos, os papéis, um acúmulo de memórias, justamente na contramão de um apagamento dessas memórias. Então, é dar a ver as memórias e uma construção que se quer dar como transparente e natural, mas que, na verdade, é um construto.

Isso vem de uma proposta estética e visual que é uma preferência nossa, mas também vai ao encontro de uma discussão política, social e visual sobre o que a gente produz como cinema e como cinema de animação.

Fernanda Salgado durante debate no Festival de Brasília 2026. Foto: Itallo Santos/Festival de Brasília

Cine Set – Você mencionou essa questão da memória e queria que você comentasse um pouco sobre os temas do filme. Além da memória, tem essa questão muito forte da ancestralidade e também o tema do duplo nas duas protagonistas, certo?

Fernanda Salgado – O encontro delas faz parte dessa premissa fantástica do filme, do encontro com o duplo, que aparece tantas vezes em tantas outras histórias fantásticas antigas. Vai um pouco também de encontrar um realismo mágico tão particular da América Latina, de misturar mesmo a realidade e a fantasia.

Tem uma citação do Jan Švankmajer, o animador tcheco, que eu gosto muito. Ele coloca que, para ter a fantasia, a gente tem que ter a realidade muito palpável, para que então o fantástico se sobressaia e essa construção funcione. Acho que talvez até mesmo a rotoscopia vá um pouco nesse lugar também: é tão real que faz com que o fantástico seja real também, e as duas coisas caminhem juntas.

Em termos de temas, a memória está muito presente. Essa recuperação da memória, essa discussão de onde as memórias estão, por que algumas são apagadas e outras não, e como a gente precisa mesmo da memória para encontrar pontos de fuga e criar futuros novos. Acho que o filme caminha por esses lugares.

Já a ancestralidade aparece muito nessas relações que são construídas. Acho que a busca da Ana é essa busca por ancestralidade, por memória, por comunidade também, e por encontrar raízes e conseguir visualizar o horizonte de futuros novos e novas possibilidades em conjunto – não tão sozinha ou individualisticamente, mas em conjunto com outras pessoas. Essa comunidade, essa amizade também. É uma comunidade muito feminina, e a força e a potência estão nesse encontro e nessa construção delas.

Cine Set – A ideia do filme também parte de um lugar muito pessoal seu, de quando você estava morando fora?

Fernanda Salgado – Na verdade, quando eu comecei a escrever essa história, eu estava em Belo Horizonte mesmo. Eu acho que essas coisas… A história vai encontrando a gente também. Então, o que eu tinha mencionado antes era como essa experiência de estar morando fora do Brasil, fora de BH, me permite talvez enxergar a cidade de outras maneiras, encontrar a poesia da cidade também em outros lugares, para ver toda essa beleza das nossas raízes mesmo. E a cidade se torna um personagem muito presente.

Cine Set – E o que vem, em termos de circuito pela frente para o filme, depois da estreia aqui no festival?

Fernanda Salgado – Na sequência, no dia 26 de setembro, a gente faz uma estreia em Belo Horizonte, na Mostra CineBH. Vai ser uma exibição muito especial, na Mostra Cine Praça, ao ar livre, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.

Quando surgiu esse convite, foi maravilhoso pensar em exibir o filme pela primeira vez em Belo Horizonte, em praça pública, em um dos lugares que são tão importantes na cidade, que é a Praça da Liberdade.

Na sequência, a gente faz a nossa estreia internacional no Festival Internacional de Cinema de Vancouver, no Canadá. A gente está na mostra Vanguard, que é uma mostra competitiva. E logo depois já vamos para a nossa estreia na Europa, que é no BFI London Film Festival, em Londres, que também espero que seja muito bonito.

No dia 5 de novembro, a gente tem a estreia no circuito comercial no Brasil todo.