O Brasil é país homenageado na edição 2025 do Festival de Cannes. Logo, a presença brasileira é intensa com representantes da maior parte dos Estados do país na Marché du Film, a tradicional feira de mercado do maior evento de cinema do planeta. Além disso, “O Agente Secreto”, novo longa de Kleber Mendonça Filho, na disputa da Palma de Ouro, e o projeto Directors’ Factory Ceará-Brasil mostram como estamos em alta na França.

Neste cenário de efervescência para o audiovisual nacional, especialmente, após as vitórias de “O Último Azul” e “Ainda Estou Aqui“, respectivamente, no Festival de Berlim e Oscar, a ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes, desembarcou em Cannes para uma série de eventos ao longo do festival.

No meio da disputada agenda, a ministra reservou um tempinho para uma conversa com o Cine Set. No debate, as políticas públicas nacionais para a cultura na Região Norte do Brasil e a participação do MinC na COP-30 a ser realizada neste ano em Belém.

Cine Set – A Região Norte historicamente sempre foi deixada de lado em relação a recursos voltados para a cultura e o cinema. Qual a política de descentralização adotada por sua gestão para promover a descentralização do investimento no setor, especialmente, com foco nos Estados amazônicos?  

Margareth Menezes – Desde 2023, começamos a fazer um trabalho com as políticas culturais de nacionalização das oportunidades. Neste sentido, a reorganização da distribuição e implementação da Lei Rouanet foi muito importante, afinal, historicamente, ela sempre ficou mais concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro.   

Com isso, nos últimos três anos, o percentual de oportunidades na Região Norte cresceu 270% através da Lei de Incentivo à Cultura. Muito graças ao dispositivo da Rouanet Norte para que pudéssemos fazer esta correção. Agora, devemos tirar do papel a Rouanet Nordeste – a qual ainda vai abranger o Espírito Santo e um pouco de Minas Gerais – e a Rouanet Centro-Oeste.  

A Lei Rouanet é um dispositivo, incentivo de fomento, dando acesso ao patrocínio para o setor cultural. Como o patrocinador sempre definia quem iria apoiar, isso levava justamente à predominância dos projetos de São Paulo e Rio de Janeiro. Durante os últimos dois anos e meio, através de diálogos com as empresas, estamos mudando esta cultura, fazendo, inclusive, com que empresas dos próprios Estados comecem também a investir.   

A primeira grande ação no audiovisual foi a Lei Paulo Gustavo com uma indução exclusiva para o setor. Os resultados já podem ser vistos com os lançamentos chegando aos cinemas, inclusive, em Manaus, onde foram abertas quatro salas. Chamamos todas estas ações de nacionalização do fomento. 

Cine Set – Como a senhora avalia a participação dos Estados da Região Norte nas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc? Como ampliar?  

Margareth Menezes – Foi muito maravilhosa. A Lei Paulo Gustavo foi executada com participação de 96% dos municípios brasileiros. Na Região Norte, houve uma participação massiva. Já a Lei Aldir Blanc teve a primeira edição bem-sucedida e, agora, mais de 40% dos Estados estão prontos para receber a segunda parcela.   

A partir do momento que o presidente Lula assinou a regulação, vamos poder ad infinitum ter sempre a Lei Aldir Blanc, este fomento que sai direto do Governo Federal, para 100% dos Estados e 96% das cidades brasileiras que estão conectadas ao Ministério da Cultura. Isso muda tudo.   

Estamos induzindo um percentual da Aldir Blanc para fomentar a política Cultura Viva e outra parte para construção de equipamentos culturais. Isso tudo é algo novo; nunca antes na história da cultura brasileira tivemos esta oportunidade. Temos que agradecer ao presidente Lula e a toda equipe do Ministério da Cultura para implantar uma política cultural de envergadura maior com grande capilaridade para que seja possível chegar em pequenas cidades.  

Ministra da Cultura visitou a Marché du Film no Festival de Cannes, onde o Brasil é o país de honra. Foto: MinC/Divulgação

Cine Set – Qual será o papel do Ministério da Cultura na COP-30 a ser realizada em novembro em Belém, no Pará?  

Margareth Menezes – Desde 2024 quando estivemos à frente do grupo de trabalho da cultura no G20, o Ministério promove ações de reflexão sobre a interferência dos eventos climáticos no nosso setor. Os focos principais são três: o primeiro é desequilíbrio climático e patrimônio, o segundo se refere a economia criativa e, por fim, cultura e clima.  

Quanto à COP-30, iremos participar, com certeza, colaborando com o Ministério do Meio Ambiente. Junto com os Emirados Árabes, o Brasil presidirá o grupo Amigos da Cultura no evento para trazer a cultura como instrumento de conscientização na utilização dos recursos das nossas reservas naturais. 

Cine Set – A senhora irá ao Festival Folclórico de Parintins neste ano? Tem algum boi de preferência? 

Margareth Menezes – Pergunta difícil esta segunda (risos). Não sei se vou porque é um ano muito forte, de bastante atividades. Teremos a COP-30, queremos entregar um grande evento internacional fantástico, logo, os esforços estão concentrados neste momento para lá. Ainda tem o BRICS, no Rio de Janeiro, onde, diga-se, existe um grupo da cultura nele.  

Na questão do boi, é muito bonito. Eu me emocionei quando fui em 2023, nunca tinha ido. É uma maravilha! A maior ópera a céu aberto que podemos ter. Pessoal de Parintins está de parabéns. Não sei se neste ano, mas, no próximo quero estar de volta. O Amazonas está de parabéns.