Há um sentimento muito próprio de ser amazônida que envolve nem sempre ter certeza de suas raízes. Como bem se sabe, o passado de colonização na região apagou povos e culturas, e o mito da “mistura de raças” pode ter contribuído para que muitos de nós perdêssemos nossa rastreabilidade. Nesse sentido, “A Terra das Estrelas Distantes” é a tentativa do diretor Felipe Aufiero de retomar suas próprias raízes, enquanto viaja pelo interior do Amazonas, entre as cidades de Barcelos e São Gabriel da Cachoeira.
Para isso, Aufiero registra em imagens, com um olhar quase etnográfico, detalhes das cidades, do trajeto e das pessoas. São cenas e gestos comuns da rotina amazonense: um banho de rio, redes amontoadas em barcos, palafitas, peixes à venda na feira, entre outros. Sobre esses registros, o diretor adiciona uma narração dupla, na voz do ator Adanilo: em alguns momentos, suas próprias reflexões em português sobre identidade e, em outros, um relato ficcional em espanhol do explorador Francisco de Orellana, o primeiro colonizador europeu que navegou por toda a extensão do Rio Amazonas, agora no tempo presente.
Há um tom de ironia sobre a voz atribuída a Orellana, que o próprio filme reconhece de forma metalinguística, ao mencionar, por exemplo, o fato de um indígena estar falando em espanhol no lugar do colonizador. Talvez seja uma forma curiosa de se reapropriar, no presente, do passado que foi negado pela colonização. Esse mesmo passado também surge com seu aspecto fragmentado nos depoimentos que entram no filme, principalmente por meio de indígenas entrevistados, que falam sobre a perda de identidade da sua língua ou do fato de não saberem mais contar as lendas de determinados territórios.
O que nos sobra depois de séculos de exploração? Como pertencemos ao território se não carregamos conosco a memória coletiva e ancestral sobre esse mesmo território? A certa altura do filme, a voz de Orellana comenta que aqui habitavam tantos feiticeiros, e agora não se encontra nenhum. “Desconfio que os nativos me escondem a verdade”, afirma ele. “A Terra das Estrelas Distantes” parece querer nos lembrar, portanto, que a verdade do nosso passado também permanece escondida de nós mesmos enquanto nos perguntamos se somos amazônidas ou meros turistas presos em nossa própria terra.













