Terruá Pará, da diretora Jorane Castro, é um filme que começa atmosférico, mostrando imagens da floresta amazônica, trazendo à tona o clima que o letreiro de abertura coloca, explicando a expressão que dá título ao filme, com “terruá” sendo uma corruptela de terroir, terror em francês. 

Mas, como se costuma dizer, nada tema, porque esse termo foi apropriado pela cultura paraense como sinônimo de diversidade. A atmosfera de suspense inicial logo dá lugar à música, e o filme se revela como um documentário sobre a diversidade musical da cena paraense.

O filme começa mostrando um rito indígena, mas depois se amplia, e a proposta da diretora é apresentar, de forma clara e didática, a riqueza cultural do estado através da música. Vemos manifestações culturais e religiosas onde a música tem papel importante, e vemos os depoimentos – e números musicais – de alguns artistas da região, que falam de ritmos como carimbó, brega, tecnobrega, guitarrada…

Nesse caldeirão, o longa também abarca cultura dos povos originários, cultura da pesca, influencias africana e caribenha na música do Pará, e artistas da periferia, que falam sobre representatividade e também sobre a importância da tecnologia, cuja acessibilidade tornou possível a esses artistas gravarem seus trabalhos e depois serem ouvidos.

A montagem intercala depoimentos de artistas com cenas da natureza ou da paisagem urbana – foi filmado em Belém, Bragança e na Vila dos Pescadores – e ainda com quase “vídeo-clipes” de alguns dos artistas. É filme para se ver com som alto, pois a riqueza dos ritmos, que passa por influencias de rap, hip hop, rock e até música clássica criam uma paisagem sonora que, em alguns momentos, se torna praticamente irresistível.

Acima de tudo, são os depoimentos que trazem humanidade ao longa e evitam que ele se torne apenas uma pesquisa didática. Uma artista fala sobre como a música mudou sua vida e ajuda influenciar outras mulheres; outro fala sobre a interessante noção de que, no Pará, “o som não é estático”. Algumas falas são engraçadas, outras ressaltam a importância daquelas manifestações culturais. Esse mosaico de arte e como ela influencia o elemento humano rende alguns dos melhores momentos do documentário.

O único senão do filme é que, com 1h40 de duração, ele não consegue evitar um certo cansaço aqui e ali. Conforme o longa avança, fica a sensação de que uma montagem um pouco mais compacta e objetiva poderia fazer bem ao filme. Algumas sequências possuem um tempo de tela longo sem que fique clara a necessidade para tal.

Mas esse entrave não compromete seriamente o filme, que é um trabalho importante por valorizar a cultura do estado e dar voz e vez a artistas que mantém essa efervescência cultural rolando. Terruá Pará acaba sendo uma bela celebração do que é ser do Norte do Brasil, e ainda consegue fazer isso divertindo o espectador em vários momentos.