Começamos à beira de uma fogueira, na garganta da noite. O sensor da câmera digital está sendo esgarçado ao máximo para captar as imagens em baixa luminosidade. Com isso, Itaarió, sentado ante o fogo, a fronte eclipsada pela fumaça, assume um quê de sobrenatural, fantasmagórico.

É apropriado. Itaarió é, afinal, a divindade-mór dos Kaiabi, o criador de tudo. Ele reuniu um conselho celestial, incluindo o dono do sol, o dono da chuva e até mesmo Jesus Cristo — que, como criador dos não-indígenas, tem certa culpa no cartório —, para comunicar sua decisão: Itaarió vai maltratar a Terra, aumentar sua quentura e cessar suas chuvas. Está decidido.

Assim começa, sem maiores explicações, o curta “Maira Porongyta — O Aviso do Céu”. Estamos à beira da fogueira. Assistimos ao discurso de Itaarió. Testemunhamos a resolução do conselho. Ao final, uma cartela nos diz que um pajé, presente na reunião, comunicou a seu povo a condenação da Terra.

Como este filme foi feito? Como se deram os ensaios para rodá-lo? Quem o fez? Os créditos respondem a esta última pergunta: o Coletivo Audiovisual Ema’ẽ Jeree assina sua realização, embora a diretora creditada na ficha técnica seja Kujãesage Kaiabi, coordenadora do grupo. No elenco, demais nomes do povo Kaiabi interpretam as divindades. 

Quanto à sua feitura, podemos conjecturar. A julgar pela sua forma, o filme todo parece ter sido rodado em um ou poucos takes. Os realizadores teriam, nesse caso, distribuído várias câmeras em torno da ação, a uma certa distância, e permitido que Tuiaraiup Kaiab, que encarna Itaarió, improvisasse o que bem entendesse, a partir do mote central, pelo tempo que fosse preciso.

Pode ser. É fato que o filme carrega um quê de aqui e agora que informa de forma curiosa o insólito da obra. Na verdade, esse é seu grande trunfo: transpor a barreira entre o “mito” e o concreto — na verdade, demoli-la. Com esse gesto, é o próprio ato de fazer cinema que acaba ganhando o primeiro plano. 

É justamente nesse sentido que o filme ganharia mais se optasse por uma abordagem mais paciente. Logo de cara, pouco depois do quadro inicial que descrevíamos há pouco, o filme corta para um outro ângulo, também mostrando Itaarió em frente ao fogo. E mais um plano frontal, pouco depois, traz o restante das divindades ali presentes, antes de retornarmos ao quadro inicial. 

Não há um porquê, em termos de ritmo, para nenhum desses cortes — sua justificativa parece residir apenas no fato de que as câmeras já estavam ali, à disposição. É um problema, porque o filme, que é, em suma, um grande monólogo, resulta um tanto trôpego no seu andamento: falta um ritmo próprio.

Por outro lado, são precisamente escolhas do tipo que reforçam a centralidade do fazer cinema na concepção do projeto: por que isso e não aquilo? O filme resulta, então, numa obra aberta. A aparente arbitrariedade se torna tão importante quanto o véu de fumaça que recobre o rosto de Itaarió.