Geralmente, toda temporada de premiações (principalmente as americanas) tem filmes de temas já conhecidos vistos sob uma nova perspectiva. Um exemplo clássico disso é a constante sobre filmes de guerra, grandes favoritos por abraçarem fortemente o patriotismo e por suas sempre competentes qualidades técnicas. Depois de ‘1917’, ‘Dunkirk’ e ‘Até o Último Homem’ nos últimos cinco anos, ‘Cherry’ parecia ser a aposta mais promissora do segmento este ano como possível candidato ao Oscar. Entretanto, neste caso, nem mesmo a temática, diretores ou o ator principal conseguiram esconder a realidade: ‘Cherry’ tinha tudo para ser um bom longa, mas se tornou uma grande bagunça. 

Quem dirige o projeto são os irmãos Joe e Anthony Russo, responsáveis por finalizar a saga do infinito no MCU com os sucessos ‘Vingadores: Guerra Infinita’ e ‘Vingadores: Ultimato’. Após encabeçarem a maior bilheteria nos cinemas até então, os irmãos ficaram confortáveis o suficiente para fazer um filme de acordo com suas preferências, o que gerou a boa escolha e dobradinha com Tom Holland (mais conhecido por ser o Homem-Aranha) como protagonista e outras decisões não tão boas assim. Digo isto, pois, “Cherry” parte de uma boa prerrogativa, da temática fácil de ser vendida, mas, se utiliza de tantos artifícios ruins que acaba escondendo o bom material que os diretores tinham em mãos. 

Basicamente, a produção conta a história de um jovem militar que sofre de transtorno pós-traumático após retornar do Iraque. Ao tentar lidar com a doença, ele acaba virando um assaltante de bancos para sustentar o seu vício em drogas. Inicialmente, “Cherry” desperta interesse, principalmente, por romper com a narrativa tradicional de traumas e sequelas sobre heróis de guerra, já que mesmo voltando com honras do Exército, o protagonista se torna uma espécie de anti-herói imoral. 

A verdade, porém, é que “Cherry” praticamente não sobrevive a tantas situações impostas pela dupla de diretores. Ao invés de seguir uma narrativa tradicional e linear, o roteiro aposta em várias linhas temporais, sem conseguir deixar a trama dinâmica, e sim, mais cansativa. Talvez para uma série ou sequência de filmes a escolha pudesse ser interessante, mas, para um longa se torna bem arrastado. A situação se complica com os atalhos batidos que os Russos distribuem ao longo do projeto como os clichês da desilusão amorosa, a descredibilização sobre servir ao exército, as dívidas com traficantes de drogas; todas as situações utilizadas onde faltava uma justificativa para a trama avançar. 

O que se salva 

Com várias subtramas que não necessariamente combinam uma com a outra, a salvação do filme reside em Tom Holland. Surpreendendo positivamente, o ator não chega a comover em seu papel, mas, ainda assim, é o elemento mais impactante da história. Sua caracterização também ajuda bastante – exceto a exagerada versão envelhecida na cena final. A dobradinha com Ciara Brava, outra grata surpresa do longa da Apple, também se mostra um dos achados de “Cherry”.  

Outro lado positivo é que a proposta parte de um momento delicado da história dos Estados Unidos, com o país sofrendo retratação econômica pós-guerra, as oportunidades de trabalho escassas e a falta de especialização e capacidade em lidar com os ex-soldados. Quando “Cherry” se aprofunda nessa temática são criados momentos que se destacam de todo o resto como o treinamento no exército, a rotina de trabalho e vício do casal e, é claro, os inúmeros assaltos. 

Com excessivos 141 minutos e uma história que começa interessante e animadora, “Cherry” tem momentos de destaque, mas termina como outro filme esquecível. No final das contas, o drama de guerra não consegue despertar interesse por não ser dramático o suficiente para emocionar e muito menos possuir cenas incríveis de ação para animar o espectador. 

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