Quando “Empresário do Terceiro Mundo”, de Mateus Guzzo, inicia às margens do Rio Guamá, em Belém, as temáticas que o documentário busca abordar já se evidenciam: o empreendedorismo e a comunicação comunitária. Os áudios da Radio Web IdadeMedia sendo gravados pela orla da UFPA, de modo amador e as discussões em torno do rádio já indicam claramente os rumos que Guzzo quer dar a sua narrativa.

Acompanhamos Angelo Madison, um comunicador que busca democratizar o acesso a produção jornalística. A partir de entrevistas, situações criadas e cenas observacionais, vamos conhecendo-o e como ele lida com a tentativa de implementar seu projeto. Nesse processo, é curioso os sentimentos que são despertados no decorrer do documentário.

Confesso que, no primeiro momento, foi como voltar ao tempo e ver as esperanças que eu alimentava — e ainda vejo meus alunos alimentarem — durante a graduação em jornalismo. Guzzo nos evidencia os desafios enfrentados por Madison como estudante de comunicação social, cheio de garra e a ilusão de que ser um acadêmico da área pode lhe abrir portas para a produção comunicacional. 

Além disso, o comportamento do protagonista remete bastante a idealização de que se pode fazer um jornalismo de guerrilha e competir de igual com pessoas e veículos com larga trajetória profissional ou mais capital simbólico. Não digo que não é possível, mas a forma como o roteiro apresenta a jornada de Madison passa a sensação de ser uma ilusão feita do mesmo material dos jovens que chegam a universidade dizendo que o jornalismo os escolheu. O protagonista, contudo, não desperta para o fato de que essa escolha profissional é atravessada pelas flechas velozes do capitalismo, as quais influenciam no processo de democratização da comunicação e no fazer jornalístico.

Neste ponto, “Empresário do Terceiro Mundo” não consegue encontrar potência na narrativa que quer apresentar. A montagem e a edição, por exemplo, carecem de um olhar apurado; as cenas parecem ter sido escolhidas aleatoriamente, sem passar um sentido que aponte para a mensagem que o filme quer passar. Se a cena de abertura consegue nos localizar no espaço e na discussão, o que vem a seguir quebra com tudo que fora estabelecido nos primeiros 10 minutos de projeção. 

Há uma tentativa, por exemplo, de fazer uma ponte entre empreendedorismo e a cidade de Belém, mas não há conexão entre as imagens e a narrativa que o filme quer contar. Nem tampouco há indicativos que apontem que em algum momento esse assunto será abordado de forma mais densa. Isso decorre devido a necessidade de centrar-se na figura de Madison. O principal problema nessa escolha é a falta de carisma do personagem.

Entendo que ele tenha uma luta importante e que “Empresário do Terceiro Mundo” oferece-lhe uma vitrine significativa para encontrar um patrocinador para o seu projeto e discutir o futuro da comunicação social no Brasil. No entanto, duas coisas são incômodas na maneira como o filme constrói/apresenta o protagonista: a militância e sua aura desafortunada.

Terrivelmente o personagem consegue reunir esses dois elementos que prejudicam a tentativa do espectador levá-lo a sério ou se identificar com ele. Algumas cenas soam como Falha Nossa da gravação parecendo uma tentativa frustrada de campanha eleitoral de baixo orçamento. Os momentos em que ele se encontra descamisado e subindo em árvore me despertaram sentimento de vergonha alheia pela escolha de inclui-las no corte final, pois em nada afeta a compreensão e as discussões que envolvem a obra. 

Além disso, o documentário parece ter certa necessidade de aproximar a câmera do protagonista; entendo que há convencionalidade do uso do primeiro plano, mas essa proximidade com tanto excesso é agonizante. Nesse aspecto, a fotografia vacila entre ângulos curiosos para entrevistas e a busca por adaptar-se a um plano quando a gravação já está rolando, daí tantos usos de zoom e mão tremida. Tudo isso traz um tom de amadorismo ao documentário.

Há um momento durante um diálogo com Madison no qual ele afirma que ser um empreendedor do terceiro mundo é ser disruptivo e ousado e a sociedade ainda não está pronta para aceitar. Isso me faz pensar no quanto “Empresário do Terceiro Mundo” tinha um material interessante para trabalhar, no entanto falha ao ter escolhas técnicas que não melhoram o olhar sobre ele.