Apropriadas, as imagens glauberianas que iniciam e encerram “O Sertão das Nossas Memórias“: o documentário de Lúcia Murat é um produto de seu tempo — a saber, dos anos 1960 e 1970.

Guerrilheira tornada cineasta, Murat tem escancarado os porões da ditadura desde seu primeiro longa, “Que Bom te Ver Viva“. Suas imagens se ocupam do horror da violência militar, seja diretamente (“O Mensageiro“, “Quase Dois Irmãos“), seja indiretamente (o interrogatório brutal em “Praça Paris“).

Aqui, a ditadura é um espectro que assombra não só a cineasta, como toda sua equipe: cada um tem um causo para contar dos tempos de repressão. Surge a questão: que imagens da ditadura pode o cinema produzir em 2026?

“O Sertão das Nossas Memórias” trata dos tempos de Murat na clandestinidade. Mais especificamente, o filme coloca a diretora, acompanhada de outros dois companheiros de guerrilha, todos já grisalhos e de andar vagaroso, em uma viagem rumo ao sertão baiano. Foi lá que, há 50 anos, o líder guerrilheiro Carlos Lamarca, escorado pelos companheiros Zequinha e Otoniel, encontrou seu fim nas mãos do esquadrão da morte militar.

A estrutura de road movie parece uma adição inusitada ao cinema de Murat, mas o que dá mesmo o tom aqui é a culpa de sobrevivente partilhada pelos ex-combatentes. Suas conversas na estrada, pontuadas por detalhes casualmente relatados de suas torturas, são alguns dos momentos de maior agudeza do longa.

Mas Murat é também uma cineasta de estilo reiterativo, de mão pesada. Não é de se espantar, portanto, que o longa recaia em alguns lugares-comuns do tema: pode apostar que Chico Buarque vai pipocar na trilha sonora logo de cara, sem falar nas já citadas imagens de “Deus e o Diabo na Terra do Sol“. Poderia ser o caso de uma reflexão sobre todo um imaginário da repressão, mas é mais uma amostra do jeitão reiterativo de Murat.

De certa forma, “O Sertão das Nossas Memórias” expõe exemplarmente a ambivalência de Murat, entre a pujança e a obviedade, porque aqui ela é não só diretora, como figura central do longa. Assim, por um lado, ela é a grande canalizadora das memórias que norteiam o filme; por outro, arraigados como estamos à sua perspectiva, ela é também um limite. 

É a dicotomia de seu cinema como um todo: pungente por vezes, irregular e mecânico outras tantas.

Podem questionar: como esperar que alguém que sobreviveu à ditadura não se apegue ao Chico Buarque? E, afinal, que mal têm suas músicas (ou “O Bêbado e a Equilibrista”, de Aldir Blanc e João Bosco, que você também pode apostar que dá as caras por aqui)? 

Mal nenhum. Mas há algo no uso da sua música que não é tão dissimilar ao uso de “Fortunate Son” sobre imagens do Vietnã por, digamos, um Zemeckis da vida. É um clichê.

A pergunta que fica, repetimos, é a seguinte: como produzir imagens da ditadura em 2026? Seria por meio do diálogo com o cinemão de ação, à la “Marighella“, de Wagner Moura? Eu posso detestar “O Agente Secreto“, mas está aí um filme que uniu sucesso de público à atualização de um certo imaginário da ditadura — empreitada particularmente frutífera quando o filme se limita ao pastiche paranóico depalmiano, mas significativamente menos quando tenta, bem, qualquer outra coisa. A questão, de todo modo, fica em aberto.

Lá pelas tantas, Murat, bem-humorada, relata um convite recebido para uma mostra de diretoras com mais de sessenta anos. É um momento engraçado, mas que também representa o que é “O Sertão das Nossas Memórias“: para o bem e para o mal, o filme de alguém do passado.