A verdadeira odisseia de 2026 não acontece no IMAX, mas nos bastidores de Hollywood: trata-se da improvável saga do lançamento de “Coyote vs. Acme” nos cinemas.

Já finalizado e aprovado em exibições-testes, o filme esteve muito perto de ser deletado permanentemente. É que, em meio ao balanço de contas da gestão de David Zaslav, novo CEO da Warner Discovery com a junção das duas empresas, os manda-chuvas do lugar preferiram descartar o longa e deduzir seus custos do imposto de renda. Isso seria mais lucrativo do que gastar dinheiro com marketing e distribuição para lançá-lo nos cinemas.

Naturalmente, cineastas de toda a Hollywood se indignaram; ninguém quer ver sua obra pagando o pato em sinistras manobras fiscais. O bafafá foi tanto que a Warner foi obrigada a recuar. Ainda assim, “Coyote vs. Acme” mofou nos porões da empresa por dois anos, até que seus direitos foram vendidos à diminuta Ketchup Entertainment por US$50 milhões — US$20 milhões a mais do que a Warner receberia de volta do leão.

Eis que, quase três anos após seu cancelamento, o filme finalmente chega aos cinemas — e ele é bom! Bastante, por sinal: uma comédia hilária que consegue a proeza de seguir a cartilha dos thrillers de tribunal à risca, ao mesmo tempo em que, sabe lá Deus como, ainda te arranca algumas lágrimas nos momentos finais. Quase um milagre.

Se é um novo “Roger Rabbit”, só o tempo dirá. O fato é que a relação entre os Looney Tunes e seus donos é capenga há muito tempo. Na verdade, essa história remonta à primeira incursão dos cartoons no cinema, em 1996.

Quando os Looney Tunes viraram produto

É sempre um mau sinal quando a primeira coisa que você escuta depois do tema dos Looney Tunes é a voz de R. Kelly. Os anos 1990, de fato, não foram fáceis. Mas isso é “Space Jam: O Jogo do Século”: um produto de sua época que nunca esteve lá muito interessado em ter qualquer tipo de sobrevida — reclamar dos efeitos datados, por exemplo, é pueril. Porque, à parte a memória afetiva de crianças impressionáveis, quem, no fim das contas, se lembraria de um comercial?

Na trama, um coorte alienígena aterrissa na Terra para escravizar os Looney Tunes em seu parque de diversões extraterrestre. Mas os cartoons desafiam seus algozes para uma partida de basquete intergalática  — e, para isso, precisam de uma mãozinha do astro Michael Jordan. Os aliens, por sua parte, roubam, com sua magia alien (nem me perguntem), o talento dos principais jogadores da NBA — o que leva a uma série de participações especiais de rostos hoje esquecidos pelo espectador casual, especialmente o brasileiro.

90% das piadas do filme, aliás, resumem-se a colocar em tela esta ou aquela cara famosa: de Larry Bird a Bill Murray, o longa é uma celebração orgiástica do show business e dos contatos dos produtores (Ivan Reitman assina a produção, coletando alguns favores, sem dúvidas). É uma efusiva e desavergonhada autocongratulação — não apenas da parte de Michael Jordan (seria esse o comercial mais caro de todos os tempos?), mas da própria Warner.

Sendo assim, qualquer matiz anticorporativista (a ameaça de escravidão perpétua em um parque temático) é mero ato falho. Quando Patolino beija o logo da empresa, marcado no seu traseiro como se marca o gado, a piada é triste demais para nos fazer rir.

E não é como se fosse um filme lá muito preocupado com a graça. É exemplar que o holofote aqui recaia mais sobre Michael Jordan do que sobre Pernalonga e sua trupe. De onde a necessidade de manter o mundo dos humanos à parte do mundo dos cartoons — curiosamente, relegados a um reino subterrâneo, onde o logo da Warner Bros. serve como uma espécie de portão do inferno. Quem precisa de escravidão espacial assim? 

O inferno corporativo de Space Jam

Mais de 25 anos depois, “Space Jam: um Novo Legado” leva esse inferno ao paroxismo. É um filme profundamente sem graça, moralmente falido, singularmente hipócrita — o nadir criativo de todos os envolvidos. E produzido por Ryan Coogler.

Se antes os cartoons viviam debaixo da terra, no reino dos mortos, agora o inferno se traduz em um banco de dados em Burbank, sob controle virtual do todo poderoso Al G. Rhythm (Don Cheadle — espera-se que o seu cheque tenha sido bem gordo, pelo menos). Curiosamente, Al não é uma inteligência artificial, mas um mero algoritmo que, por possível desconhecimento dos cineastas em matérias computacionais, é capaz de gerar códigos, apoderar-se de câmeras para vigiar o mundo real e afins.

Seu plano: inserir LeBron James em todas as propriedades intelectuais da Warner. É aqui que o filme revela sua perfídia. Como em um grande comercial para o catálogo da HBO Max, LeBron e os Tunes pegam carona no Batmóvel, visitam Hogwarts, guerreiam em Westeros e assim por diante. Os realizadores sabem perfeitamente bem que o plano de Al de regurgitar propriedades intelectuais para as massas é nojento, mas não se escusam de executá-lo. Como se ninguém fosse perceber. 

É um nível de duplipensamento tal que talvez ultrapasse a hipocrisia e acerte em cheio no cinismo. A decisão trágica de dar ao personagem de LeBron um arco dramático completa o circo de desgraças. Não só o sujeito é absolutamente inexpressivo, como todo seu discurso de esforço e grandeza — típicas platitudes atléticas — compõe convenientemente bem com o mundo que o filme nos apresenta: um ciberinferno capitalista do qual não se pode fugir. O melhor é scrollar a tela inicial da HBO Max em busca de uma dose forte de qualquer coisa, assistindo a alguns poucos eleitos que chegaram lá por esforço próprio.

Ah, e lá pelas tantas, todos jogam basquete.

O último “Space Jam” deixa dolorosamente claro como a Warner encara os Tunes: como mais uma dentre suas várias franquias de sucesso, sem direito a quaisquer privilégios — e até com certo desprezo. De que outra forma explicar a decisão hedionda de transformar os cartoons em horrendas renderizações em 3D? E como explicar o descaso da Warner ante o primeiro filme totalmente animado dos Tunes — e em 2D, por sinal?

Quando os Looney Tunes escapam das mãos da Warner

Trata-se de “Looney Tunes – O Filme: O Dia Que a Terra Explodiu”. Não se espante caso seja a primeira vez que você ouve falar nesse título. A Warner, já rebatizada Warner Bros. Discovery e sob a gestão de Zaslav, esse cinéfilo inveterado, abriu mão dos direitos do longa e vendeu sua distribuição por alguns trocados. O resultado: uma ótima animação, enterrada ainda viva. Procurem pelos restos de cal nos dedos de Zaslav.

A trama é muito simples: Gaguinho, gentil e acanhado, e Patolino, com seu ego de milhões, são os únicos capazes de deter uma invasão alienígena. Isso porque um composto extraterrestre despejado numa fábrica de goma de mascar está fazendo a cabeça dos terráqueos. Imagine “Os Invasores de Corpos” se, em vez de casulos, os ETs se apoderassem dos humanos por meio do mais novo chiclete da moda. 

É deliciosamente absurdo, com um estilo e uma imaginação visual infinitamente criativos — há uma sequência inteira animada à la Léger, com toques de construtivismo russo. Tudo transpira o prazer de animar. 

Verdade, aqui e ali, o ritmo é um tanto truncado. Mas é uma queixa menor, compensada pelo bombardeio de gags ao longo de 90min. Apenas a breve piada envolvendo a fracassada carreira de influencer do Patolino já vale a sessão.

Joe Dante contra os engravatados

Leitores mais perspicazes podem ter notado a omissão de um título nesta lista. Não há por que se preocupar: “Looney Tunes: De Volta à Ação”, de 2003, não havia sido citado apenas pela estrutura do texto. Começamos pelos sucessos (embora os números oficiais do segundo “Space Jam” tenham sido comprometidos pela pandemia). Depois, os fracassos — e “De Volta à Ação” foi um fracasso retumbante, arrecadando US$68 milhões para uma produção de US$80 milhões.

Por quê? Joe Dante, admirador desde criança do espírito anárquico de Chuck Jones (nome por trás de alguns dos maiores clássicos dos Tunes), estava empenhado em fazer o anti-”Space Jam”, em suas próprias palavras. Nada de piscadelas corporativas, nada de concessões aos modismos da época. Aqui, Patolino e Pernalonga são o que sempre foram: vaidosos, sacanas, violentos, caóticos.

A plot, por sua vez, tira sarro abertamente da Warner e seus executivos. Patolino, eterno coadjuvante de Pernalonga, é demitido por Kate Houghton (Jenna Elfman), vice-presidente da divisão de comédia, mas cujo repertório de piadas provavelmente se iguala ao do tio do pavê. Prova disso é que os desenhos perdem o brilho sem Patolino, e Kate precisa convencê-lo a voltar ao estúdio.

Tarefa difícil, porque o pato já se juntou a D. J. (Brendan Fraser), segurança do estúdio e aspirante a dublê, que, por complicações que nem vale a pena tentar explicar, acaba se envolvendo em uma trama de espionagem internacional. No centro de tudo, claro, está a maléfica Acme Corporation.

Curioso que, mesmo com todo o nonsense, ainda temos aqui a mesma chuva de menções a outros produtos da Warner: no início mesmo do filme, por exemplo, Matthew Lillard é visto recebendo duras críticas de Salsicha por sua interpretação no live-action de “Scooby-Doo”, então recém-lançado. Estariam os Tunes sendo usados como pretexto para mais um comercial de luxo dos seus chefes engravatados? 

Não; o tratamento de Dante ao estúdio é significativamente mais ácido e, mais do que filmar participações de celebridades, a única preocupação do diretor é deixar os Tunes à solta. Em termos de ação, isso se traduz no que talvez seja ainda hoje a mais impressionante integração entre desenhos e humanos, dado o tanto de estripolias envolvendo ambos. 

Mas o grande pecado de “De Volta à Ação” é simplesmente o de não ser lá muito engraçado. As piadas são irregulares e variam consideravelmente de qualidade — possivelmente o resultado das inúmeras interferências do estúdio durante a produção. Terminamos o filme mais respeitando seus esforços do que o amando por completo.

Ele merecia, todavia, um carinho maior do público — o mesmo público que, menos de dez anos antes, havia consagrado a mediocridade cinematográfica de Michael Jordan.

O problema nunca foram os Looney Tunes

Sob a luz de “Coyote vs. Acme”, relembrar as demais incursões dos Looney Tunes no cinema é notar que não é de hoje que seus donos tratam com desdém sua propriedade intelectual mais valiosa. Quando muito, os cartoons estão à serviço de um mero gesto autocongratulatório — nada mais distante, portanto, da ode ao fracasso de “Coyote vs. Acme”. 

Por outro lado, as parvoíces corporativas talvez não devessem nos preocupar tanto assim. Afinal, o retrospecto mostra ser impossível fazer um bom filme dos Tunes com o aval oficial dos engravatados. Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Coyote, Frajola e toda a turma existem tão somente para morder a mão de quem os alimenta, e é preciso muita bile e desprezo mútuo para isso. 

Portanto, chute-os, quebre-os, retorça-os, atropele-os com um trem em alta velocidade, derrube mil pianos sobre suas cabeças, relegue-os aos mais sinistros confins do seu HD. Eles aguentam. Eles são desenhos, ora bolas.