Ela é “Ângela Carne e Osso: a ultra poderosa inimiga número um dos homens”, assim se autointitula a protagonista Ângela, uma mulher livre, leve, solta. No auge de sua expressão, juventude, sensualidade, sexualidade e segurança.
Dirigido por Rogério Sganzerla, A Mulher de Todos foi o segundo de uma longa parceria, tanto na arte quanto na vida pessoal, do diretor com sua musa inspiradora, Helena Ignez, que dá vida a essa “vampira escandalosa”. Lançado em 1969, no auge da Ditadura Militar, o clássico do Cinema Marginal voltou aos cinemas no início do ano restaurado em 4K, demonstrando toda a sua atemporalidade.
O filme é uma ode à liberdade feminina, quando pouco se falava sobre isso. Mas há espaço, nas entrelinhas, para explorar o corpo político, anárquico, com certo teor surrealista. Em recente entrevista, Ignez fala desse protagonismo feminino não penalizado: “[as mulheres eram] sempre vítimas, exploradas, sem possibilidade de conexões, por exemplo”.
E isso fica claro na postura subversiva em que a personagem e a direção frenética, juntamente com a fotografia em preto e branco, colocam essa mulher como heroína de si mesma. Ângela Carne e Osso é uma mulher democrática: usa e abusa de todos eles, maltrata os homens que caem de amores por ela, os usa como acessórios.
A história em si não é nada mirabolante, senão ela assumindo as rédeas dos seus próprios instintos, mas há uma consequência: seu marido, o megalomaníaco Dr. Plirtz (Jô Soares), contrata o matador Pelenguinho (Renato Corrêa de Castro) para dar fim à esposa, mas ele mesmo cai de amores por ela, assim como todos os homens que atravessam o seu caminho.
É interessante ver esse filme, pensando em como ele, no auge da repressão, foi um sucesso de crítica e bilheteira, explorando diversas questões como a supracitada liberdade feminina, que faz um contraponto com a dependência de certas mulheres para com determinados homens violentos (as cenas soltas de um casal em que ela pede para ele comprar uma bebida e ele a espanca para depois saciarem seus desejos não são aleatórias, há um contexto), um homem negro rico (Antônio Pitanga), dentre outras questões. Percebam que um dos maiores vícios de Ângela Carne e Osso é um charuto, símbolo de poder entre os homens brancos da elite; ela o usa com deboche e destreza. A constante quebra da quarta parede e a câmera trêmula revelam uma necessidade estética disruptiva de Sganzerla no não padrão de um estilo cinematográfico.
Nota do autor: caros leitores, meus conhecimentos de técnicas cinematográficas e estilos são intermediários, nada extraordinário no sentido de síntese de crítica. Ou seja, minha afirmação está no campo empírico.
Nesse sentido, vejo A Mulher de Todos como um contraponto a outro clássico do cinema nacional, Todas As Mulheres do Mundo (1966), de Domingos de Oliveira, que coloca essas líderes dos cromossomos XX em uma espécie de idealização masculina. Aqui, ela idealiza a si mesma, uma “mulher do século XX”, como ela esbraveja.
Mesmo que o roteiro derrape um pouco em seus quase 85 minutos, Ângela Carne e Osso é faminta não apenas pelos homens, mas por viver: “bom apetite, o lance é esse”; “não existe liberdade individual sem liberdade coletiva”, diz essa mulher com muitas ideias e ideais (e também uma resposta para o que acontecia na época), quase todos atrelados aos seus desejos, que se unem a uma trilha sonora espetacular, dos clássicos do rock’n’roll até os clássicos da MPB do momento.
Assistindo A Mulher de Todos hoje, percebe-se que é um documento histórico da época, do comportamento, e uma mulher assim, tão vívida, realmente incomoda aos mais tradicionais. Uma pena pensar que, passados cinquenta e seis anos, em pleno século XXI, o Brasil encaretou. Não voltamos para a Ditadura, mas o pensamento repressivo à liberdade de todas as formas e manifestações de desejos ainda é uma ofensa para uma extensa ala conservadora. Infelizmente, hoje, não consigo vislumbrar um diretor que tenha a coragem de Sganzerla em dirigir uma A Mulher de Todos, mesmo com todo o histórico insurgente que temos na história do nosso cinema, e isso assusta, e muito.













