Quando anunciado em 2019, “Tenet” era apenas o mais recente (e antecipado) filme de um dos diretores mais aclamados da atualidade. A pandemia do COVID-19 o transformou em um símbolo da sala de cinema enquanto agente comercial e cultural e local de congregação. Seu realizador, Christopher Nolan (“Dunkirk”), que já era defensor aberto deste espaço, virou a personificação da esperança de uma indústria na luta por sobrevivência.

Assistir e opinar sobre “Tenet” desprovido desse contexto é uma missão quase impossível. O filme – especialmente no formato Imax preferido por Nolan – brilha ao encapsular o senso de espetáculo que continua sendo domínio das salas de cinema, ainda que uma análise um pouco mais minuciosa deixe entrever seus pontos fracos.

Um personagem inominado (John David Washington) é um agente da CIA que, depois de um incidente em uma missão na Ucrânia, é recrutado para a Tenet – uma entidade internacional que está estudando o fenômeno da “inversão”, ou seja, a reversão da entropia de objetos ou pessoas que faz com que elas pareçam estar voltando no tempo. Com um parceiro a tiracolo (Robert Pattinson), ele parte em uma missão ao redor do mundo para impedir uma grande catástrofe planejada por um magnata russo (Kenneth Branagh) e de quebra salvar uma donzela em apuros (Elizabeth Debicki).

O FILME QUE O PÚBLICO PRECISA (PARA O BEM E PARA O MAL)

Se isso parece quase todos os 007s que você já viu misturados com uma boa dose de ficção científica, é porque é mesmo. O roteiro de Nolan se contenta em reproduzir estruturas de filme de espionagem pois acredita que toda a teoria sobre a “inversão”, combinada com as cenas mais caras que o dinheiro pode comprar, vão compensar pelos eventuais deslizes narrativos.

A surpresa é que ele chega muito perto: “Tenet” é impressionante em quase todos os aspectos. O trabalho do diretor de fotografia Hoyte van Hoytema é de encher os olhos enquanto Jeffrey Kurland povoa o filme com a alta costura mais exclusiva e elegante. Coordenando tudo, a montadora Jennifer Lame cria um ritmo incessante para a produção, levando o público de uma cena de ação para a outra por duas horas e meia.

De certa forma, “Tenet” ganha no cansaço: a trama é confusa para dizer o mínimo e com tantas explosões e perseguições acontecendo a todo momento, não há real oportunidade para que ela seja explorada – ou mesmo para que ela importe. O elenco principal dá o máximo de si – e consegue por puro talento – extrair vida de personagens arquetípicos. Os momentos mais bem-sucedidos do longa não vem deles, mas sim do escopo de tirar de fôlego de certas sequências.

Mais do que talentos individuais, a produção reforça o status de Christopher Nolan enquanto uma marca e o cineasta entrega grandiosidade, complexidade, aprumo técnico e a mais acrobática ação – tudo o que se espera de um produto com seu nome. “Tenet” pode não ser o filme que o público merece, mas é o filme que ele precisa no momento: veloz, vazio e irresistível.

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