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Paul Thomas Anderson retorna em mais uma adaptação de uma obra de Thomas Pynchon, desta vez o romance Vineland de 1990. O diretor já havia visitado o autor em Vício Inerente e se reencontra aqui com temáticas anti-sistêmicas, agora centradas em guerrilheiros e em um inimigo comum materializado em um só homem: um coronel branco, extremista, conservador e supremacista que guarda segredos apenas para brincar de arminha em um grupo secreto de nome pomposo. Essa descrição não serve apenas para o personagem vivido por Sean Penn; ela define também o espírito de Uma Batalha Após a Outra, essa epopeia grandiosa. É um filme que ostenta discurso sisudo, repleto de atos pesados, repugnantes e agressivos, mas ao mesmo tempo tão irônico e certeiro em seu comentário que a incapacidade do personagem de Leonardo DiCaprio de seguir ordens, 16 anos depois de abandonar a guerrilha e ver tudo ruir, torna-se o mais puro alívio cômico — talvez a melhor definição dessa palavra nos últimos anos.

Anderson encontra aqui uma força brutal: um thriller político que não abre mão do comentário social, uma comédia de erros que se desdobra em um filme de ação estonteante, pulsando com tanta raiva que por vezes parece escapar das mãos do próprio diretor. Essa voracidade, que é também paixão, luto e esperança, anima o sentimento anarquista de deixar o circo pegar fogo enquanto a narrativa se mantém no microcosmo dos personagens, tecendo um olhar para o agora. Fora do filme, a discussão se amplia para a gentrificação, as políticas moldadas ao bel-prazer do indivíduo branco e a pompa maioral que os sustenta, sobretudo quando armados por coronéis, sargentos e capitães. A grande sacada de Anderson está em reunir comentários, histórias e personagens e convertê-los em ironia devastadora: um filme imparável desde o primeiro ataque e que esquematiza, a partir dele, as dinâmicas morais e humanas e as consequências de cada batalha, presente ou futura.

Minha experiência com o filme ganhou outra dimensão quando percebi a ausência de uma personagem essencial: Perfidia, vivida com intensidade por Teyana Taylor, assume logo no início a eloquência revolucionária do grupo “French 75”, encarnando a promessa de que as consequências da luta podem tardar, mas chegam. Seja numa filha inesperada, seja numa prisão prolongada. E então, subitamente, Perfidia desaparece da narrativa. Durante a sessão, questionei se Anderson havia feito um filme masculinista, que tratava as mulheres apenas como engrenagens a serviço dos homens. Mas refletindo mais tarde — assistindo ao trailer, deitando a cabeça no travesseiro — compreendi que Perfidia é o coração invisível do filme. Ela persiste em cada gesto de Bob Ferguson, o personagem de DiCaprio, que tropeça até nas tarefas mais básicas, como decifrar um código para salvar a filha. A cada cena, o espectador sabe exatamente o que Perfidia faria, como faria e com qual olhar faria. É de arrepiar, e ao mesmo tempo provoca uma melancolia profunda por ser apenas a memória de tantas mulheres que diariamente seguem lutando contra o sistema opressor e liberal.

Os planos de Anderson aqui comunicam muito mais do que simples construções dialéticas de um universo. Eles são saltos diretos para o espectador, convites a se enxergar na tela e reconhecer a vida ordinária do mundo contemporâneo em situações e sequências específicas. Em uma das melhores perseguições de carro dos últimos anos, o diretor capta o ato volátil de existir, com suas montanhas emocionais e os rastros inevitáveis que deixamos pelo caminho. Rastros que não voltam, lembranças que se apagam, fragmentos que ainda assim nos constroem e que, em algum momento, podem ou não fazer sentido. É a estrada onde presente e passado fervilham, onde todos se tornam humanos. Sem mais.

Entre tantas camadas, aventuras e desventuras, Anderson também retoma sua obsessão pelas cicatrizes que os pais deixam nos filhos. Sean Penn e DiCaprio encarnam essa disputa fraternal alegórica com a intensidade necessária para manter a voracidade da trama. Mas é Perfidia, mesmo ausente, que dita o compasso; e é Willa, a filha interpretada com brilho por Chase Infiniti, quem dá corpo à sua herança. Silenciosa, mas carregada pelo passado dos pais guerrilheiros, ela se revela como o verdadeiro coração pulsante do filme. Essa escolha, que durante a sessão me incomodou por reforçar a impressão de um filme masculino, acaba revertida: ao dar voz e presença à filha, Anderson transforma a ausência de Perfidia em potência. Enquanto isso, as sequências entre DiCaprio e Benicio Del Toro surgem quase como aventuras infantis de adultos brincando com armas, reforçando a comédia absurdista e acentuando o comentário racial, econômico e político do presente.

Exaustivo de maneira proposital, o filme transmite o cansaço de seus personagens após tantas batalhas, recusando qualquer comoção heroica ou maniqueísmo de “bem contra o mal”. Nada é leviano, nada é descartável; tudo importa. A vida humana, parece dizer Anderson, precisa lutar a cada dia para continuar existindo. O resultado me lembrou Fuga de Los Angeles, de John Carpenter, tão marcado pelo contexto político da era Clinton. Ali, como aqui, a aventura fantástica se mistura ao comentário social, retratando uma sociedade à própria sorte, presa e alienada, sobrevivendo em meio a mutações impostas pelo poder. Não distante da realidade atual, Uma Batalha Após a Outra sintetiza o cenário político global e, ao piscar para o espectador, parece perguntar: está mesmo tudo bem?