“A natureza, ao fazer-nos crescer, não só nos favorece em forças e volume, mas, à medida que o tempo vai passando, dilata com ele o espaço interno da inteligência e da alma”

Bons textos atravessam gerações e séculos, instigando novos leitores e seguidores dos autores clássicos que marcaram a história da humanidade. Shakespeare é um deles. Qual ator/atriz não daria o sangue para declamar suas palavras? Ouso dizer que todos esperam pelo grande momento de “Romeu & Julieta”, “Otelo”, “Hamlet” e “Macbeth”… São histórias fortes, que mantem o legado e são facilmente (atenção ao eufemismo ao uso de “facilmente”) adaptáveis aos novos tempos.

As obras de Shakespeare se confundem com o mundo das artes. Você pode não ter lido “A Megera Domada”, por exemplo. Mas, certamente teve o contato com uma Catarina feminista da década de 1920 na novela “O Cravo e a Rosa” (2000) de Walcyr Carrasco, ou os perrengues adolescentes de um subúrbio qualquer nos Estados Unidos em “10 Coisas que Eu Odeio em Você” (1999). Os dois exemplos têm como base o clássico da fera que é dominada.

Chegamos em 2026 e temos mais uma adaptação do dramaturgo inglês. A bola da vez é Hamlet. Com roteiro de Michael Lesslie e direção de Aneil Karia, o texto, agora enxuto, prioriza os personagens principais, saindo da fria Dinamarca do século XVI para uma fria Londres do século XXI, cujo o poder está nas mãos dos indianos-britânicos sob a égide da especulação imobiliária, centralizando uma máfia bilionária.

E a frieza não é apenas sensorial, mas é física e literal. Nesse sentido, a dupla acerta nesse clima indolente de domínio e poder capitaneado por Claudio (Art Malik). Hamlet (Riz Ahmed), nesse primeiro momento, parece ser o único com sangue nas veias e sente todas as emoções possíveis por uma dupla, tripla, quadrupla traição. E ele vai em busca de sua vingança.

Como já disse, o texto de Shakespeare se adapta a qualquer contexto. Aqui, Karia (velho parceiro de Ahmed, juntos venceram o Oscar de Melhor curta metragem ficção por “The Long Goodbye” em 2022) parece querer a sua versão de séries que bebem bastante do texto shakespeariano como Dinastia (1981-1989; 2017-2022), Empire (2015-2020) e Succession (2018-2023), com muita grandiosidade, riqueza, luxo e estilo. As cenas que antecedem ao casamento entre Cláudio e Gertrudes (Sheeba Chaddha) e o próprio casamento em si, são os momentos visuais refinados em ambientação e direção de arte. Aliás, é na sequência do casamento e todo o clima nada amistoso que tem a melhor cena do filme: a dança indiana, oferecimento de Hamlet em um pequeno terror psicológico aos noivos.

Ser ou não ser…?

Porém, há duas grandes ressalvas na produção de Karia. A primeira e a mais angustiante de todas: manter o texto. Isto é, a linguagem renascentista não ornou em nada com o visual contemporâneo e mesmo que a experiência fosse de um teatro gravado, soou anacrônico. Outra questão é o momento em que o longa se transforma em drama/thriller a partir das bodas. Se antes tínhamos apenas um drama que, confesso, enfadonho, ao assumir ares de suspense, o filme ganha um novo contorno, mais instigante, porém a experiência da primeira hora é cansativa.

A inserção dos plebeus também é bastante fraca e destoa completamente do contexto que a direção quer passar, pois, em nenhum momento anterior há sequer alusão às questões sociais. Algo que no texto original, permeia a vida do protagonista, para além das questões familiares.

Ou seja, ser ou não ser um drama familiar, um suspense ou os dois tudo junto?

Ainda que descaracterizado, o Hamlet de Riz Ahmed é a tour de force que do início ao fim. Lá quase pelos momentos finais quando ele desce a escada ao derradeiro fim olhando as fotos de família, a sua linguagem corporal diz sem precisar dizer. Confesso que essa pequena cena está martelando na mente até agora. E Sheeba Chaddha com seus grandes olhos expressivos e uma calmaria doentia traduz o não-lugar da mulher que não tem escolha senão seguir o seu destino fundamentado nas leis dos homens.

No fim, é tudo apenas uma grande performance (roteiro e direção) pseudo-cult.