O primeiro frame de “Capim”, de Julia Munhoz e Caio Pimenta, mostra ao que o filme veio. Em primeiro plano, cacique Deonísio, da aldeia Ubdo nhõ u. Ao seu redor, um cemitério, onde crianças enfileiradas no fundo do quadro acompanham seu depoimento. No céu, tornado escuro graças ao expressivo preto-e-branco empregado, talvez auxiliado por algum filtro na objetiva ou pela edição de imagem, eclodem nuvens pesadas, opressivas.
É o digital sendo levado ao máximo, com a profundidade de campo no limite e o obturador aceleradíssimo. O resultado é uma plasticidade com qualquer coisa de incomum, um quadro desolado saído diretamente de algum pesadelo. A urgência da obra é pintada com pinceladas barrocas.
É um filme-denúncia. O mote é a realocação forçada, o desterramento, o apagamento. Marãiwatsédé é o nome da terra dos Xavante, no Mato Grosso. Em 1966, eles foram enfiados em aviões da FAB que os levaram para bem longe dali. Quando voltaram, décadas depois, encontraram a terra arrasada.
Sem frutas para colher, sem peixes para pescar, veio a fome. O cemitério foi crescendo. E então, uma parceria inusitada: como sua terra havia se tornado um enorme capinzal, eles passaram a permitir que o gado dos fazendeiros locais se alimentasse naquelas paragens, em troca de alguns tostões. Com o dinheiro, cessou a fome.
O problema é que o Ministério Público Federal impediu o prolongamento da operação — afinal, não se pode criar gado em terra indígena. Mas onde estava o governo quando os Xavante morriam de fome? A não ser, é claro, que a intenção fosse mantê-los naquele estado miserável.
É o argumento de “Capim”. Como é o caso de todo filme-denúncia, o curta é didático, com direito a uma trilha sonora cheia de arroubos dramáticos de violoncelos. Mas as imagens impressionam. O martírio dos Xavante assume aqui contornos apocalípticos, graças ao trabalho de fotografia de Caio Pimenta e Paul Mark.
O que significa que “Capim” sobrevive ao convencionalismo porque encontra imagens na medida da sua ira.














