Vamos dizer logo de cara: Batman: O Retorno é o filme de super-herói mais cheio de tesão e sexual que já foi feito.

Super-heróis de quadrinhos, com seus corpos impossivelmente perfeitos, tanto masculinos quanto femininos, sempre inspiraram fantasias sexuais e, quando incluímos o cinema na equação, isso só se intensificou ao longo dos anos. Nas telas, super-heróis – e até alguns vilões – na maioria das vezes são vividos por gente muito bonita, e aí se soma a fantasia das HQs com o star power que o cinema proporciona.

No entanto, é raro vermos esses personagens fazendo sexo nas telas: você consegue imaginar algum dos Vingadores transando? O Capitão América foi praticamente um virgem por toda a sua carreira nos filmes do Marvel Studios… Claro, geralmente esses filmes se direcionam a um público jovem, então não podem ter sexo ou muita violência. Mas é também interessante notar como muitos dos personagens super-heróicos são inibidos nesse quesito.

Nos filmes dos heróis DC, só às vezes vemos algo um pouquinho mais liberado: o Superman e Lois Lane se pegaram em alguns dos filmes, e a Mulher-Maravilha recentemente até aproveitou o corpo de um sujeito para reviver seu relacionamento com o Steve Trevor – bem, quanto menos falarmos sobre isso, melhor.

Mas se tem um super-herói cuja sexualidade foi debatida com frequência por aí é o Batman. E curiosamente quando Tim Burton foi fazer seu segundo longa com o Homem-Morcego, um forte subtexto sexual se tornou presente… Ora, Batman: O Retorno é basicamente uma ciranda sexual entre os personagens nas quais questões de poder e repressão são peças importantes. É praticamente uma obra sobre a vingança dos reprimidos sexuais.

BURTON LIVRE, LEVE E SOLTO

É curioso também como nasceu o projeto: apesar do mega-sucesso de Batman (1989), nem Burton nem o astro Michael Keaton tinham contrato para fazer a sequência, algo impensável hoje. O diretor só topou fazer quando conscientizou o estúdio Warner de que não iria fazer uma repetição do primeiro. As circunstâncias também seriam outras: o primeiro Batman fora rodado na Inglaterra, o segundo seria feito em Los Angeles.

A Warner deu o aval, e por causa do sucesso do primeiro, deu também carta branca a Burton. Se em Batman ele foi um operário, trabalhando dentro dos ditames de um projeto milionário do estúdio – mas, ainda assim, capaz de introduzir seu estilo nele – na sequência, ele basicamente pôde fazer o que queria.

E o fez. Na história concebida pelo roteirista Daniel Waters, com colaboração de Sam Hamm do filme original, é Natal em Gotham City quando surge o estranho Pinguim (interpretado por Danny DeVito, coincidentemente um amigão do Jack Nicholson). Ele é um ser monstruoso – não pergunte – que foi abandonado pelos pais ricos ainda bebê, quando descobriram que seu pequeno rebento era uma aberração que matava gatinhos. O Pinguim se alia ao milionário inescrupuloso Max Shreck (Christopher Walken, divertindo-se com a malvadeza do seu personagem) e vira uma figura popular na cidade. Mas ele tem planos sinistros em mente…

Shreck tem uma secretária chamada Selina Kyle (Michelle Pfeiffer), totalmente submissa – ela se considera “assistente, não secretária”. Shreck gosta dela especialmente porque ela faz “um ótimo café”. Numa noite, ele a empurra do alto de um prédio, mas Selina não morre. Ela é revivida por gatos – de novo, não pergunte – e incorpora a persona da Mulher-Gato.

Esses três personagens – o Pinguim, Max Shreck e a Mulher-Gato – vão dar trabalho ao Batman (Keaton), que é introduzido literalmente no escuro, sozinho em sua mansão. O herói é mais uma vez colocado para escanteio no seu próprio filme, porque de novo Burton está mais interessado nos vilões. Mesmo assim, na trama, tanto o Pinguim quanto Shreck são reflexos distorcidos de Bruce Wayne – um também é órfão e obcecado, o outro um milionário sem consciência.

GOTHAM EXPRESSIONISTA

Em termos de história, Batman: O Retorno é mais um conto de fadas sombrio do que filme de super-herói, com personagens diferentes das suas contrapartes das HQs e eventos sem lógica acontecendo. É o tipo de filme que você tem que aceitar, tem que se entregar às tolices deliciosas da trama, senão só vai se frustrar. E se no primeiro Batman, o espírito da série dos anos 1960 se infiltrava em alguns momentos apesar do visual sombrio, em O Retorno a subtrama do Pinguim tentando se tornar prefeito é praticamente retirada de um dos episódios antigos.  Saudade dos tempos em que monstros claramente desumanos como ele concorriam a cargos públicos apenas na ficção, e não na vida real…

O roteiro em si é bagunçado, quase episódico – primeiro, o Pinguim tem um plano de vingança envolvendo os filhos de Gotham, depois quer ser prefeito, depois quer acabar com o Batman, e então volta ao plano original… Porém, de novo, é a experiência visual que impressiona em Batman: O Retorno.

A Gotham recriada nos estúdios em LA agora é um pouco menos “delírio dos anos 1940” e mais “expressionismo alemão” graças ao novo designer de produção, Bo Welch. E a fotografia de Stepan Czapsky faz deste provavelmente o mais bonito filme do Batman. O herói está ainda mais imponente – Keaton cortou a maior parte das falas do Batman, para deixá-lo ainda mais poderoso – e o clima frio e sombrio é até ressaltado pelas decorações natalinas dos cenários. E o exército de pinguins armados com mísseis no final é outra imagem quase felliniana que jamais sairá da mente do espectador. Mas há também momentos de calor: a sequência do baile, com Bruce e Selina dançando e percebendo quem são, é o momento mais sensual e quente de um filme que tem uma boa quantidade deles.

CLIMA QUENTE

Aliás, por mais que o roteiro tenha lá seus poréns, há uma coisa em que Burton e Waters mantêm o foco: no teor sexual da história. O Pinguim é mostrado várias vezes como um verdadeiro tarado. Já a Mulher-Gato se torna a figura mais fascinante do longa, e a grande personagem feminina de um filme da Warner/DC até a chegada da já mencionada Mulher-Maravilha. Ela não vai mais esperar por um Batman para salvá-la – como ela afirma a uma vítima de um assalto a quem protege – e é uma verdadeira força sexual, impossível de controlar.

Após reviver, ela se transforma em mulher forte, embora também instável, e ao topar com o Batman, a atração é imediata – o fato de Pfeiffer e Keaton terem tido um relacionamento antes das filmagens deve ter contribuído para a química entre eles. Bruce e Selina são lindos, malucos e curtem fantasias de couro, chicotes e violência leve. Foram feitos um para o outro, e Burton extrai muita energia para o filme dessa tensão sexual.

A Mulher-Gato é tão poderosa em sua força sexual que ela nem pode ser morta – Shreck tenta de novo, mas não consegue. Ele, aliás, é o único dos personagens principais fora da ciranda porque o negócio dele é o poder, não o sexo. E é algo recorrente dentro da história os homens tentarem dominá-la, mas é inútil: depois de tantos anos de repressão e de conformidade ao papel feminino que a sociedade acha “bom”, não há mais volta para Selina depois da sua libertação.

Burton até se recusa a terminar com um final feliz entre ela e Bruce, e a atmosfera natalina contribui para deixar o desfecho do filme com um tom bastante melancólico. Quem, hoje em dia, consegue terminar um blockbuster de super-heróis desse jeito? Enfim, Pfeiffer tem uma grande atuação no papel, uma das melhores da sua carreira, com direito a colocar um pássaro vivo na boca e a lamber o Batman numa cena já icônica, e é uma pena que ela não viveu a Mulher-Gato novamente.

ANOMALIA DENTRO DOS FILMES DE HQs

A recepção a Batman: O Retorno é conhecida hoje: o filme ainda fez sucesso, mas não tanto quanto o primeiro. Pais começaram a reclamar da impropriedade do filme para as crianças, por causa do teor sexual e das esquisitices, como a gosma escura que sai da boca do Pinguim. O McDonald’s tinha problemas para vender seus McLanches Felizes atrelados a um filme no qual o vilão quer afogar crianças no esgoto. Essa repercussão fez a Warner rever sua estratégia para continuar com a franquia, e Tim Burton acabou sendo sutilmente afastado do universo do Homem-Morcego – embora ele até tivesse planos para um terceiro filme.

Hoje, Batman: O Retorno é uma anomalia dentro do subgênero: um filme multimilionário de um grande estúdio, feito para vender brinquedos e McLanches e com uma marca identificada mundialmente, conduzido pela visão maluca e bizarra de um diretor que fez o seu filme. Sai o pop dançante de Prince, entra a balada gótica e sensual da banda Siouxsie and the Banshees. Porém, Batman: O Retorno parece ter envelhecido melhor que o primeiro, em boa parte por causa das suas esquisitices – esse sim é um daqueles para o qual o chavão “jamais seria feito hoje” se aplica.

O próprio Burton, aliás, também não costuma ser um cara que aborda sexo em seus filmes – o mais perto de uma cena sexual num filme dele é aquela transa amalucada entre o vampiro de Johnny Depp e a bruxa de Eva Green em Sombras da Noite (2012), uma cena de tom pastelão. Mas de repressão, ele entende. Afinal, em Batman: O Retorno, os personagens brigam, se aproximam e se afastam, e essa dança atrai o público tanto quanto as cenas de ação e os efeitos visuais. Porém ao final, como se diz popularmente, “ninguém come ninguém”.

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