Vamos tirar a premissa do caminho: misto de documentário e ficção, “Alarme Silencioso”, do diretor Ricardo Favilla, coloca um grupo de atores para interpretar um grupo de atores elaborando um texto coletivo sobre uma tentativa de suicídio que abala tal grupo de atores. É um filme, portanto, que trata de assunto espinhoso, e receita-se ao crítico bastante precaução no uso de sua caneta.
A depender do seu nível de neurose e tédio, talvez você se pegue pensando sobre o trabalho do intérprete enquanto assiste ao longa. Colocar atores performando sobre o ato de performar traz à tona algumas das piores tendências performáticas dos performers em cena. Todos aqui estão claramente tentando demais.
Isso porque talvez o ator, que se esforça para parecer entregue sem pudores, seja a criatura mais autoconsciente do mundo. É preciso sê-lo, afinal, para refletir sobre as formas de se colocar no mundo. E todo neurótico autoconsciente é, no fundo, profundamente egóico.
Então fica difícil levar a sério todo o jogo teatral proposto quando “Alarme Silencioso” não se dá conta do quão afetado ele soa na suposta entrega emocional diante de tema tão grave e solene. Não ajuda que nenhum desses atores, encarregados da tarefa de criar um texto sobre o suicídio entre os jovens, tenham qualquer insight a oferecer sobre depressão, suicídio, arte, juventude ou qualquer coisa que seja, exceto a própria insinceridade cínica da coisa toda, que o filme, aliás, jamais admite.
A coisa piora ainda mais quando os atores-personagens conduzem entrevistas com pessoas de interesse sobre o tema. Temos um psiquiatra, um casal que perdeu uma filha para a depressão e pessoas que, em algum momento da vida, tentaram o suicídio. “Alarme Silencioso” se enxerga como respeitoso, sensível e, em última instância, importante, mas não percebe o quão leviano soa ao intercalar o depoimento do casal enlutado com momentos absolutamente tolos de encenação coletiva, tudo temperado pela trilha sonora emocionante. De especial interesse são as reaction shots mostrando o psiquiatra entrevistado observando a presepada dos paspalhos que o entrevistam, momento que involuntariamente se assemelha a um episódio de The Office.
Para além do fato de que a peça encenada ao longo de “Alarme Silencioso” parece terrível, é preciso questionar também seus métodos de criação. No que exatamente o retiro da trupe para uma cachoeira paradisíaca, regado a canções meia-boca num violão desafinado, como acontece em dado momento, contribui para o processo criativo? Não seria mais fácil talvez simplesmente entrevistar um suicida ou encontrar alguém disposto a narrar a própria história e ficcionalizá-la de alguma forma?
Seria, e o filme se dá conta disso. As cenas que se seguem então ajudam a ilustrar o grande problema da empreitada. São três os atores que performam monólogos baseados em experiências colhidas de pessoas que tentaram tirar suas vidas. Falemos sobre os dois primeiros casos por ora.
O primeiro relato é o de um homem de 30 e poucos. Ouvimos sua voz tranquila e a narrativa seca, sem firulas. Um dos intérpretes o ouve atentamente, com uma expressão compassiva. Daí cortamos para o mesmo ator performando a confissão que acabamos de ouvir, e seus olhos estão vermelhos, seus lábios tremendo, sua cara se contorcendo em choro. Nada disso estava presente no relato real.
O mesmo vale para o segundo relato, onde uma mulher conta a sua luta e a do filho contra a depressão. Cortamos para uma atriz que interpreta aquele mesmo relato, e novamente há lágrimas e mais lágrimas, muito embora a pessoa real falasse de forma simples, sem afetações.
Somos levados, assim, a questionar as escolhas dos performers. Eles não parecem interessados em “achar a essência” de seus personagens, mas apenas em reproduzir uma imagem estereotipada sobre a depressão arraigada por afetações fáceis, que, antes de tudo, chamam a atenção para o quão hábeis esses performers supostamente são.
Eis que chegamos ao terceiro relato. A coisa se complica porque a confissão vem de um dos membros da trupe, performando um monólogo em seu próprio nome enquanto olha para a câmera. Dentro do jogo entre ficção e realidade do filme, tudo leva a crer que o ator de fato enfrentou batalhas contra a depressão em sua vida.
Mais tarde, numa cena com aquele mesmo casal enlutado de antes, ele pedirá perdão pela sua própria tentativa de suicídio. É delicado falar desse momento porque, obviamente, não gostaria de fazer pouco caso do sofrimento de ninguém. Mas aí está novamente: o performer chamando atenção para si, numa performance que não é performance mas que, sem dúvidas, é. Porque apenas ouvir o relato das pessoas entrevistadas não seria o suficiente.
E mesmo assim, enquanto me contorcia constrangido na cadeira, pude ouvir fungadas ecoando em profusão ao redor da sala. A não ser que a plateia estivesse sofrendo de rinite, diria mesmo que estavam emocionados com o que viam. Fato que, para mim, permanece absolutamente inexplicável, mas o crítico apenas pode falar por si e tentar prolongar a conversa sobre a obra.
De modo que só posso afirmar que cada fibra do meu corpo agonizava num desespero que eu ainda não havia sentido nesta edição do Festival. O osso é duro de roer – ou talvez eu apenas seja autoconsciente demais de minha própria autoconsciência para apreciar o quão autoconscientemente genuínos esses nobres atores supostamente são.












