Nos últimos anos, temos visto diversos clássicos animados ganhando vida, a exemplo de ‘O Rei Leão’, ‘A Pequena Sereia’ e o mais recente, ‘Lilo & Stitch’. O que os une? O apelo à nostalgia, o sucesso de bilheteria e recepção crítica morna. ‘Como Treinar o Seu Dragão’ segue o mesmo percurso, mas dribla este último.
Dirigido por Dean DeBlois — responsável não apenas pela animação original de 2010, mas também por Lilo & Stitch (2002), ambos indicados ao Oscar —, o longa marca a estreia dele em live actions. Escolher um dos próprios sucessos para essa estreia pode parecer uma decisão segura, quase confortável, mas isso não significa que o projeto esteja isento de desafios. E é justamente por enfrentá-los com sensibilidade e competência que o filme se diferencia das outras adaptações recentes.
O grande mérito visto aqui é a fidelidade respeitosa à obra original. A narrativa permanece praticamente intacta, os personagens são os mesmos, e há até momentos replicados quadro a quadro. À primeira vista, isso poderia soar como um “copia e cola”, mas, neste caso, a ausência de alterações drásticas funciona como virtude, não como falha.
Isso ainda nos leva a uma questão mais ampla: será que tentar modificar uma história clássica e consolidada na memória afetiva do público é sempre a melhor escolha? A resposta, ao menos aqui, parece ser negativa. Ao preservar a essência da história original, ‘Como Treinar o Seu Dragão’ consegue manter o que realmente importava: a emoção.
O papel da nostalgia também é fundamental para entender o sucesso – tanto de público, quanto crítico – do remake. Em um cenário em que o público se mostra cada vez mais irredutível em não aceitar alterações nas obras com as quais cresceu, o longa acerta ao respeitar esse sentimento. Ainda mais do que agradar fãs antigos, ele também cativa novos espectadores, provando que emoção e qualidade técnica podem ser suficientes para conquistar diferentes gerações, sem recorrer a reformulações radicais.
Do ponto de vista técnico, o longa é um deslumbre. Com cenas gravadas tanto em estúdio quanto em uma ilha na Irlanda do Norte, a fotografia se destaca com tomadas aéreas, sequências em movimento e uma abertura impactante em que os dragões atacam a vila de Berk. A direção de fotografia é assinada por Bill Pope, conhecido por Matrix (1999), e o uso de CGI é cuidadoso, nunca exagerado. Isso garante realismo às criaturas e ao ambiente, com destaque especial para Banguela, que é talvez a transposição mais bem-sucedida de um personagem animado para o live action dos últimos anos. O dragão mantém o carisma, os trejeitos e até a fofura que conquistaram o público há 15 anos.
Ainda que pareça apenas uma história fantasiosa sobre amigos dragões, o longa carrega uma mensagem, ainda que não-explícita e intencional, sobre aceitação do diferente e o convívio harmonioso, especialmente necessária nos dias de hoje. Ao mostrar a relação improvável entre Soluço e Banguela, o longa sugere a possibilidade de superar o medo do “outro” e encontrar harmonia no que antes era visto como ameaça. Em um mundo marcado por divisões e intolerâncias crescentes, essa mensagem, mesmo que implícita, ganha força e atualidade.
Em um cenário saturado por remakes pouco inspirados, Como Treinar o Seu Dragão é uma grata exceção. Não apenas respeita sua origem, como também prova que, às vezes, o segredo não está em reinventar o que já funcionou, mas em saber recontar com sensibilidade e domínio técnico uma história que ainda merece ser ouvida — e, agora, vista sob uma nova luz.













