PARA LER OUVINDO:
Há muitos simbolismos em volta da cobra, esse animal tão feroz e hipnótico. Passando por questões bíblicas e ditos populares. Ela representa, sobretudo, mistério, sensualidade e um grande temor por seu veneno e garras, isto se pensarmos nas venenosas. Além, é claro, de renovação.
Em contraponto, há a areia e o seu montante, representados por dunas, desertos e tudo mais. A imensidão da vida em pequenos grãos, em pequenas partes e partículas que constituem o seu monte. Ela varre o tempo, adentra locais, potencializa sentimentos. Contudo, em grandes quantidades, pode ser um problema.
Essa síntese simbólica está representada em “O Deserto de Akin”, longa escrito e dirigido por Bernard Lessa (“A Matéria Noturna”, 2024). Além dos simbolismos, o filme carrega consigo aquele nó na garganta, uma (des)esperança na vida, na sociedade brasileira após o golpe de 2016 e o que veio com ele: as eleições de 2018 e a vitória daquele que não deve ser nomeado.
Akin (Reynier Morales) é um médico cubano que vem para o Brasil, especificamente em Vitória e comunidades ao redor, contratado pelo governo brasileiro em uma ação que deu muito certo durante algum tempo, o Programa Mais Médicos, criado em 2013 pelo governo Dilma. Esses médicos, diferentes dos demais compatriotas sempre muito brancos, de classe quase sempre elevada e buscando mais o título de Dr/Dra. (mesmo sem doutorado, culpem a Europa lá do séc. XI) e ostentação financeira, do que exatamente a paixão e dom que o ofício exige; adentraram comunidades e locais que esses médicos brasileiros não ousavam em pisar. Revelando também uma outra questão: a saúde pública. A saúde dos marginalizados que não deveriam ter acesso ao básico, como saúde, cuidado e o mínimo de atenção.
O mundo de Akin está inserido entre um atendimento e outro; uns papos com seu amigo que goza da mesma situação que a sua, Rafael (Welket Bungué); e os afetos de Érica (Ana Flávia Cavalcanti) e Sérgio (Guga Patriota).
Há muito a ser dito e ser sentido, ainda mais em um momento como aquele tão danoso para os que ainda tinham esperança não somente na democracia, mas de uma sociedade menos histérica e conflituosa como nesses últimos anos. Talvez por isso Lessa abuse do simbolismo da cobra para mostrar o perigo iminente prestes a acometer a todos. E isso fica bastante explícito nas cenas de briga por conta do, então, candidato em questão e de como a violência, em outros tempos simbólicos, tornaram-se explícitos e sem quaisquer punições e peso na consciência.
Quando Akin recebe uma notícia que abala o seu mundo compreendemos o contraponto do outro lado da cobra, como canta Pitty: “chega dessa pele, é hora de mudar”, a troca de sua pele de sua perspectiva e vontades está fortemente atrelada não somente ao seu eu privado, mas o seu eu coletivo. O seu pertencimento representa esses grãos de areia que se transformam em um deserto, mas que pode trazer estratégias e benefícios de vivências.
Ao falar desse não-lugar, de deslocamento do corpo (afinal, um médico cubano, preto retinto, de dreadlocks e bissexual), da polarização da violência, da areia que cobre a experiência e a vivência, Lessa opta por um filme que diz muito nas poucas palavras, em um conjunto sutil, em Lá Menor. Transformando toda aquela histeria em um silêncio angustiante e de um período tão desacreditado que vejo o próprio Akin como um simbolismo de nós: clandestinos compulsoriamente. E que, passados esses anos, precisamos renovar a pele, trocar a carcaça, pois eles não dão trégua.














