Um ponto que chamou a atenção no horror de 2024 é que alguns filmes exploraram a estética retrô, mostrando que o cinema contemporâneo ainda é um pouco escravo do passado.
Longlegs – Vínculo Mortal, A Primeira Profecia, MaXXXine, Eu Vi o Brilho na TV e Stopmotion são bons exemplos desse tipo de cinema vanguardista. Dentro dessa vibe retrô, temos Desconhecidos, o terceiro longa-metragem de JT Mollner, um divertido thriller psicológico com elementos de terror que repete alguns maneirismos batidos do gênero, mas faz isso com grande espontaneidade e empolgação, certamente para fisgar o público.
No filme, somos apresentados a uma garota (Willa Fitzgerald) que está sendo perseguida por um homem chamado “Demônio” (Kyller Gallner, de Sorria). O enredo se desenrola como uma saga mortal de gato e rato entre os dois.
Abordagem imprevisível
Desconhecidos é uma grata recompensa para quem espera um filme intrigante. Com um estilo energético e uma atmosfera de violência, a produção adquire um sentimento inquietante, a partir de uma história exótica onde nada é o que parece ser.
O que mais me agrada na abordagem de Mollner é sua imprevisibilidade, sempre manipulando o espectador, subvertendo suas expectativas e oferecendo surpresas que enriquecem o quebra-cabeça de mistérios do enredo.
O filme evoca o aspecto cruel dos filmes de crime dos anos 70 – há elementos de true crime – ao mesclar a hiper-realidade de acontecimentos com uma perseguição intensa que vai remodelando os papéis da dupla protagonista, vivida por Fitzgerald e Gallner, entre quem é a caça e quem é o caçador.
Mollner opta por uma narrativa feita em capítulos embaralhados (não lineares), com uma montagem envolvente que nos insere na tensa caçada a um serial killer.
Empreitada visual
O mais interessante nesta empreitada é a composição visual criada pelo diretor, a partir da filmagem em película de 35mm, que dá a sensação de que o filme inteiro (do visual à textura, passando pela atmosfera) é um daqueles thrillers nostálgicos em formato VHS, típicos das antigas videolocadoras. Essa sensação é reforçada pela condução da trama, que na maior parte do tempo quase não apresenta diálogos, e pela presença constante de suspense e tensão.
Em Desconhecidos, temos uma fotografia expressiva, com cores vivas que variam entre o azul melancólico nas cenas mais fechadas e intimistas e o vermelho intenso, que incrementa os planos que remetem à violência. O diretor de fotografia do filme é o ator Giovanni Ribisi, que faz sua estreia na função.
Não posso negar que o estilo pretensioso de Mollner, em certas passagens, cria várias subtramas paralelas – como a do casal hippie da montanha, formado pelos veteranos Ed Begley Jr. e Barbara Hershey – que acabam atrapalhando o andamento dos fatos. Senti também uma tentativa forçada de emular Tarantino, com algumas referências ou tiradas pop moderninhas que não se encaixaram bem na história.
Curiosamente, o que funciona melhor na obra não é a caça ao serial killer (ainda que essa parte seja divertida de se acompanhar), mas sim a dinâmica entre os personagens de Willa Fitzgerald e Kyller Gallner (ambos ótimos, com Fitzgerald se sobressaindo mais). Essa relação é muito bem construída por meio de diálogos interessantes, nos quais Mollner se destaca, extraindo conversas triviais sobre sexo, desejos e relações. Essas interações enriquecem o jogo psicológico entre eles, com uma ambiguidade nas palavras e comportamentos dúbios de ambos.
No geral, Desconhecidos é um thriller de horror/suspense/violência alimentado por situações intensas, com uma direção bem executada em cada cena e vigor nas atuações. O filme mostra que o gênero pode ser extremamente atraente e empolgante, equilibrando o medo e o humor nas melhores medidas, ao mesmo tempo que reflete as ansiedades e as mazelas de nossa sociedade doente.















“Desconhecidos” é um filmaço.
Gostei do filme, a dinâmica entrar o casal de protagonistas é tensa e violenta.