Percebe-se desde os primeiros minutos de Longlegs: Vínculo Mortal que veremos um filme de clima e de cuidado com a construção da imagem. Em um formato de tela quadrado que remete a 16 mm, quase como um cartão-postal, uma imagem tipicamente americana de uma bela casa cercada por neve em uma paisagem isolada surge na tela. Um carro se aproxima. Uma menininha chega perto desse carro e dele sai um personagem que é praticamente um jumpscare encarnado: o assassino em série que dá nome a este novo trabalho do diretor Osgood Perkins.
Longlegs é ambientado na década de 1990, como se pode perceber pelos retratos de Bill Clinton nas paredes dos cenários do FBI. E claro, isso não é por acaso – essa é a década que nos deu dois clássicos dos suspenses com serial killers, O Silêncio dos Inocentes (1991) e Seven (1995). Sem eles, este longa não existiria. O filme conta a história de uma jovem agente do FBI, Lee Harker (interpretada por Maika Monroe), que parece ter uma espécie de “sexto sentido”. Ela é chamada por seu superior para ajudar na investigação sobre um assassino que está matando famílias há pelo menos 30 anos. O sujeito se identifica em cartas como “Longlegs”. A investigação aos poucos vai assumir um caráter sobrenatural e ainda mais assustador e pode ter relação com o passado da protagonista.
Osgood Perkins aos poucos vem construindo uma carreira no terror, tendo dirigido antes A Enviada do Mal (2015), A Bela Criatura que Mora Nesta Casa Sou Eu (2016) para a Netflix, e Maria e João: O Conto das Bruxas (2020), todos interessantes, mas nenhum realmente memorável. E para quem não sabe, ele é filho do ator Anthony Perkins (1932-1992), o eterno Norman Bates de Psicose (1960), logo, ele entende algo sobre mães assustadoras e o quão bizarro muitas vezes um homem pode parecer vestido de mulher, ambos atributos usados com grande efeito em Longlegs.
Esse novo filme representa um salto para Osgood: é como se os exercícios de estilo anteriores tivessem preparado o diretor para o controle de tensão que exibe aqui e o rigor da sua construção. Ao lado do diretor de fotografia Andrés Arochi, ele cria enquadramentos simétricos, usa grandes angulares para distorcer os ambientes, às vezes deixa espaços vazios nos enquadramentos para criar tensão e até fazem uso de vez em quando de umas imagens praticamente subliminares. Tudo para indicar a presença do mal, que poderá deixar alguns espectadores pensando, “eu vi mesmo isso?”.
Não é um filme de sustos – embora até contenha um ou dois – mas de uma sensação sinistra de que algo muito ruim pode acontecer, reforçado à medida que a trama avança. Como autor do roteiro, Perkins até lança mão da intervenção de uma narradora, que explica pormenores da história quando vamos nos aproximando do final. Esse momento não deixa de ser uma mastigação para o público, mas o roteiro e a encenação fazem o possível para torná-lo o mais orgânico possível.
Monroe conduz o filme com habilidade, trazendo empatia para uma personagem quase autista no seu comportamento – até a cabana onde ela mora, no meio do mato, lembra um caixão. Mas as grandes atuações do filme são Alicia Witt como sua mãe – a atriz não tem receio de aparecer envelhecida e consegue incutir uma tridimensionalidade à sua personagem paranoica – e Nicolas Cage como Longlegs. Sério, esta é uma das melhores atuações do veterano das telas, que compõe com sua aparência, voz e trejeitos uma figura capaz de perturbar o espectador apenas ao aparecer. Se o filme às vezes investe no bizarro para perturbar o público, Cage é a encarnação disso e o filme até aproveita alguns momentos de “cageísmos”, os exageros e maneirismos já conhecidos, para incluí-los de forma natural no comportamento do seu assassino em série.
Um dos momentos mais sutilmente perturbadores do filme e que demonstra a inteligência do diretor e a força do trabalho do seu ator é a cena em que, por alguns minutos, o agente do FBI vivido por Blair Underwood fica sentado de frente para uma TV mostrando a imagem congelada do sorriso bizarro de Longlegs, e o espectador fica com a sensação de que a imagem na tela pode até atacar o homem da lei…
É um filme que em alguns momentos ameaça cair no ridículo – e de fato, esses elementos bizarros podem acabar desagradando alguns espectadores. E obviamente, com a trama que mistura serial killer, ocultismo e satanismo – e até pitadas de rock’n’roll da banda T-Rex – Longlegs não traz nada de realmente novo. Mas é um trabalho instigante e que tem a coragem de se arriscar com algumas escolhas ousadas e diferentes. E ainda por cima é bastante elegante, bonito de se ver, precisamente calculado e capaz de perturbar o espectador, não com sustos baratos, mas com atmosfera e paciência. E também bizarrices, e algumas delas dificilmente o espectador vai esquecer.













