Dira Paes é daquelas atrizes que preenchem a tela com sua presença, sensibilidade, ousadia, finesse e comprometimento com a arte. Transitando entre a comédia, o drama, os novelões, séries e filmes com maestria e afinco, agora, a artista resolveu se colocar atrás daquele objeto que a consagrou mundo afora: as câmeras. E sua estreia como diretora em “Pasárgada” não poderia ser diferente senão em uma ambientação que tem a natureza como testemunha de uma história urgente e necessária.
Irene (Paes) é uma ornitóloga que faz parte de uma rede internacional de tráfico de animais silvestres. Para entrar mata adentro em busca de pássaros raros, ela é auxiliada no primeiro momento por Ciça (Ilzo Gonçalves) que logo passa essa tarefa para outro mateiro, o jovem Manuel (Humberto Carrão).
Apesar do alerta acerca do que estamos fazendo com nossa fauna e flora em nome do lucro e também como estamos à mercê desses sujeitos, “Pasárgada”, se inspira poeticamente em “Vou-me Embora Para Pasárgada”, célebre poema de Manuel Bandeira, na questão existencial dessa mulher. Quem ela é? Quem ela pertence? Entre o conflito da ausência de sua filha e sem nenhum talento para o ofício de mãe, ela coloca nesse trabalho arriscado algum sentido de existência, ainda que se angustie de estar nesse papel de contraventora. O seu lado sexual também é oprimido por ela mesma nesse quase romance com Manuel e digo quase porque compreendo que essa não era a questão aqui, mas mostrar os bastidores desse ofício ingrato.
Com uma narrativa mais lenta, física e contemplativa, a produção quase não tem trilha sonora, senão o som da mata e os chiados dos pássaros. Percebe-se um trabalho minucioso e muito respeitoso para o tema proposto, mas sua lentidão – que para mim, não é um problema, mas pode ser para outras pessoas, torna a película arrastada. A cena final, confesso, não encheu meus olhos.
Filmado na pandemia em Arraial do Sana, em Macaé (RJ), Dira reuniu uma produção enxuta. Apenas ela, Carrão e Ilzo Gonçalves (excelente) estão em presença, enquanto as participações de Cássia Kis e Peter Ketnath se deram no contexto online. Nesse sentido, de incerteza e insegurança, que também se manifesta no roteiro assinado por ela, a atriz se cercou de familiares, como o diretor de fotografia, Pablo Baião (seu marido) e Eliane Ferreira, sua prima, na produção.
“Eu sou tropical”, esbraveja Irene em uma cena. Tropical também é o nosso ecossistema que não é respeitado de forma devida e vem nos cobrando bravamente a curto e longo prazo. A crise existencial de Irene não humaniza essa mulher, mas a coloca no centro de um debate importante. E Dira Paes sabe disso. Pois estamos vendo o outro lado da exploração, a do explorador e todo o seu método falacioso e irresponsável em prol do lucro. Capitalismo, né? No fim, “Pasárgada” é uma bem-vinda estreia. E é isso.













