Deprecated: Automatic conversion of false to array is deprecated in /home/cinesetc/public_html/wp-content/themes/Extra/core/functions.php on line 1469

O octogenário James L. Brooks escreve personagens como um octogenário. Crianças, jovens, homens, mulheres, políticos e policiais: todos soam como um octogenário. Isso não é por si só uma coisa ruim. Só significa que James L. Brooks é um octogenário.

Ou melhor ainda: que ele é o mesmo James L. Brooks de sempre. “Imperfeitamente Perfeita”, título brasileiro bizarro para seu mais novo filme, traz todas as suas marcas registradas: diálogos rápidos e bem humorados combinados a um melodrama familiar dos mais chorosos, com direito a trilha sonora engraçadinha e sentimental. 

A péssima recepção do longa ao norte do Equador parece sugerir que se trata de um filme fora de sintonia com os tempos. E isso é verdade. É também verdade que “Imperfeitamente Perfeita” vem carregado daquele papo chapa branca sobre a virtude e a moral, algo que, Brooks insiste, ficou nos bons e velhos tempos de Obama. Então tá.

Por tudo isso, “Imperfeitamente Perfeita” é orgulhosamente anacronista, ultrapassado, até. Mas há algo de comovente em ver alguém agarrando-se tão obstinadamente aos seus velhos truques. A tia protetora (Jamie Lee Curtis), o pai pilantra (Woody Harrelson), o policial bondoso (Kumail Nanjiani): Brooks organiza as peças no tabuleiro e muito do prazer de seu filme vem de simplesmente assistir aos personagens interagindo.

Não que não haja problemas. Algumas das tangentes em que o longa se lança, e há uma pá delas, não funcionam tão bem. Em especial, toda a subtrama romântica com o irmão caçula e possivelmente autista de nossa protagonista nos faz lembrar, mais uma vez, que um octogenário está escrevendo diálogos para jovens atores.

Falando em nossa protagonista, quem exatamente é ela? No início da trama, Ella McCay (Emma Mackey) é algo equivalente ao que chamamos de vice-governadora por aqui. Mas quando o governador Bill (Albert Brooks) é convidado para uma posição na Casa Branca, a jovem idealista com meros 34 anos torna-se de fato a governadora. Se republicana ou democrata, isso não sabemos.

Em seu discurso de inauguração, ela canta louvores às soluções bipartidárias. Depois, descobrimos que ela fez campanha ferrenha contra a legalização da maconha em seu estado, cujo nome nunca é mencionado, aliás. Brooks está claramente tentando cortar para os dois lados do embate político. Tudo bem: ele não é nenhum revolucionário, apenas um artesão confiável de entretenimentos sólidos.

E se há algo de sólido aqui, é seu elenco. Mackey e Kumail Nanjiani, como o policial que faz a segurança da governadora, saem-se especialmente bem. Mackey, com seus olhos fundos e sorriso tenso, encarna de forma bastante apropriada o papel principal, mas é mesmo Nanjiani quem mais nos surpreende. 

Seu papel é pequeno e, em teoria, um tanto quanto unidimensional — o representante da virtude e do trabalho bem feito. E, ainda assim, o comediante injeta boas doses de humanidade e humor no sujeito: um içar da sobrancelha ou um sorriso de soslaio são o bastante para que toda a interioridade do policial venha à tona. Que ele transmita tudo isso sob quilos e mais quilos de ácido hialurônico não deixa de ser um feito notável.

Mesmo sendo longo, assim como todo filme de James L. Brooks é, “Perfeitamente Imperfeita” é perfeitamente agradável sempre que deixa a química entre os dois rolar solta.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

    Ver todos os posts