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É estranho – e, em última instância, equivocado – pautar a qualidade de um filme a partir da importância de seu discurso. Pode-se dizer que “Assexybilidade” é um filme que merece ser visto pelas coisas que diz. Mas isso seria ignorar o fato de que também é um bom filme.
E, no entanto, ao longo da sessão, eu me lembrava da pergunta feita pela assessora de imprensa do longa por e-mail. Ela queria saber se eu desejava uma entrevista com o diretor. Sei que é uma prática comum nesse mundo jornalístico – entrevista-se o realizador em ocasião do lançamento de seu filme –, mas ao meu cérebro autista aquilo pareceu um tanto quanto estranho. Naturalmente, só posso dizer se tenho interesse ou não em falar com o diretor depois de assistir ao filme que ele dirigiu. Se não, de que me importa o que ele tem a dizer?
E afinal, o que Daniel Gonçalves tem a dizer? Volto a essa questão mais à frente, mas já disse e repito que gostei deste seu documentário. E se menciono que sou autista, é porque sinto que isso informa a maneira como me relaciono com a obra.
Já de cara, encena-se, através de silhuetas contra um fundo branco, uma cena de sexo. Carícias, gemidos, o pacote completo, com a novidade de que – até onde as silhuetas permitem ver – há uma pessoa com deficiência em cena. O efeito é imediato: passamos a pensar no modo como, se aparecem no pornô ou em qualquer outro contexto sexual, corpos de PCD estão sempre sob a categoria de freaks.
Em seguida, iniciam-se as entrevistas. Essa, aliás, é a estrutura do filme: entrevistas com PCD entrecortadas por momentos de encenação. Uso “encenação” não para tratar apenas dos momentos de performance art, mas de qualquer situação para além da entrevista em que seja preciso um acordo entre câmera e corpo, diretor e personagem, quanto ao que fazer naquele take. A chave de “Assexybilidade” está aí.
Porque as entrevistas em si são boas. Gonçalves tem o cuidado de entrevistar pessoas com todo o tipo de deficiência e deixar que elas narrem os modos como constroem seus tesões, mesmo diante das obstruções normativas. Ele se coloca ativamente nesses diálogos, como no momento em que, diante do que ouve de seu interlocutor, revela que sua primeira transa também foi com uma prostituta. E é claro que, do ponto de vista político, é importante que ouçamos essas falas.
Mas são aqueles momentos entre uma entrevista e outra – por falta de termo melhor, fiquemos com “encenações”, mesmo – que fazem pensar. Porque, como já disse, essas cenas colocam em jogo a relação entre corpo e câmera. É o que acontece quando Gonçalves – que tem uma deficiência que afeta sua coordenação motora – filma ao próprio corpo diante de um espelho, por exemplo. Ou ainda, quando assistimos a um dos personagens do documentário, que também tem a coordenação motora afetada, lutando para abrir um pacote de camisinha. Sua dificuldade com aquele pacote metálico faz pensar até mesmo numa gag de Jerry Lewis, em que a impossibilidade do comediante de realizar um ato cotidiano escala através de trapalhadas cada vez mais absurdas. Aqui, a situação, por mais engraçada que seja, escancara uma certa violência.
E isso tudo é muito interessante – certamente mais interessante que os momentos “performáticos” per se. Num deles, um homem gay que só tem uma das pernas faz uma performance no Largo da Carioca, no Rio. Noutro, uma mulher cadeirante de meia-idade se transforma em dominatrix. Essas cenas refletem um outro aspecto do filme. Parece que o fato de algumas das pessoas retratadas serem artistas torna seus discursos um pouco cristalizados demais, asseados demais.
Ou seja: já chegam com a fala pronta. O que seria interessante caso Gonçalves investigasse ainda mais aquilo que venho apontando como trunfo da obra: os modos como a relação entre a câmera e os corpos em cena é construída. Trata-se, portanto, de perguntar como jogar com a palavra do performer, já que toda forma de se colocar no mundo é uma performance social.
Há, talvez, uma forma melhor de explicar a coisa. O longa se encerra ao som de “Flutua”, da Liniker, e – opinião polêmica – confesso que nunca senti nenhum apreço especial pela obra da cantora. É claro que sua voz é boa, é claro que sua música é bem tocada, é claro que o arranjo é bem construído. E é claro, finalmente, que sua existência e sua figura têm significado político. O que estou dizendo é que sua competência, por qualquer ângulo que se tome, é óbvia, e que não posso descrever sua música como mais do que “correta”.
É o que acontece com a tal da imagem da dominatrix, se pudermos retomá-la. É claro que está aí uma subversão do imaginário padrão. É claro que essa é uma imagem que deve ser usada como ferramenta de empoderamento e subjetivação. E é claro que é uma imagem correta, moral e tecnicamente falando.
Quando me parece, como disse, que o trunfo de Gonçalves surge ao tratar daqueles corpos de outra forma: uma que implica um convite à fruição do mundo a partir de uma experiência corpórea outra. Uma que implica, enfim, em uma experiência espectatorial mediada por uma câmera que precisa se desfazer do que entende por “cinema”. Só assim se pode erigir uma nova prática cinematográfica, uma que seja mais apropriada àquela forma de vida.
De modo que, tendo assistido ao filme, posso responder à proposta da assessora de imprensa que me escreveu. Eu faria apenas uma pergunta a Daniel Gonçalves: o que pode um “cinema PCD”? Não acho que ele tenha chegado à resposta ainda, mas sem dúvidas está abrindo o caminho.














Um adendo:
A música “Flutua” é composição e repertório do Johnny Hooker, a Liniker é “feat” na canção.
Fora isso, atiçou a curiosidade sobre o filme.