Júlio Bressane caminha por um cenário. Olhar vazio, quase uma figura fantasmagórica  que invade a tela com sua presença em terreno sublime. Nada estático, ele se movimenta e logo entendemos seu mote: um filme está sendo gravado. Pessoas trabalham em um set, cenas sendo tecidas por um curioso artesão.  

As filmagens de Pitico, futuro filme de Bressane, ganham uma atenção ao serem colocadas por um ponto de bastidores: o cinema nasce dentro da sua própria forma. Assim, durante os seus poucos mais de 25 minutos, O Fantasma da Ópera se alimenta do próprio espírito do realizador que produz sua obra e nela se afinca.  

Filmado em conjunto com o diretor Rodrigo Lima, o curta-metragem incide o tempo todo a quem assiste: não se trata de um vídeo making-of comum, nem se quisesse ser, afinal, aqui temos um cineasta assumindo a natureza de um ser tão presente, mas que se enxerga como vulto diante de seu trabalho.  

Desse modo, o “fantasma” evocado nada mais é que a própria representação de um sujeito que muito já não se vê embora permaneça, enquanto este tenta montar a sua “ópera” de acontecimentos, logo, a verdade se revela, e somos testemunhas desse arranjo audiovisual.  

Os olhares técnicos também se ilustram quando a câmera flerta com o jogo de colocar  o “fantasma-diretor” como protagonista de sua própria construção, além do uso da  fotografia monocromática que intercala espaço com a luz natural de um filme Pitico  que existe em algum lugar, menos aqui – pois não é seu tempo.  

O Fantasma da Ópera é a condição de um cinema autoconsciente, que extrai suas linhas menos óbvias, onde um construtor pode tornar-se linguagem da sua própria concepção.