Matias (Gabriel Faryas) é um jovem e ambicioso ator com olhos cor-de-mel. Rafael (Cirillo Luna) é um igualmente jovem e ambicioso político. Um está no páreo para um papel de grande exposição; o outro é candidato a prefeito de Porto Alegre. Não é interessante, portanto, que eles sejam vistos praticando atos íntimos em público — o que só aumenta o tesão.

É essa a premissa de “Ato Noturno”, mas o mais peculiar é como os diretores Marcio Reolon e Filipe Matzembacher escolhem contar essa história: trilha de suspense, chiaroscuro digno de um noir, zoons bruscos — até mesmo um split screen depalmiano dá o ar das graças. É, portanto, todo um arsenal de thrillers setentistas sendo mobilizado aqui, contrastando com um mote que cineastas menores talvez filmassem com ares de “cinema sensorial”.

A sensorialidade é algo ótimo, mas parece que, a essa altura do campeonato, vão se firmando certos chavões que tentam traduzir uma certa sensibilidade dramática, e não nos fazem sentir nada. Falo da mesma câmera na mão filmando tudo em close e em baixa profundidade de campo de sempre.

Estranho, então, que a lembrança do primeiro filme dos diretores, “Beira-Mar”, pareça-me tão condizente com a descrição feita acima. Verdade seja dita, não me lembro quantos closes com câmera na mão existem naquele filme, mas lembro, sim, dele ser bastante correto, bastante bonitinho, bastante sensível (palavra desprezível). Ou seja, convencional.

Já “Ato Noturno” é inventivo e surpreendente, dotado de um frescor que passava bem longe daquele primeiro trabalho. Aqui, o mundo da política e o do teatro colidem, e os fragmentos tensionam o público e o privado, o performático e o autêntico. Trapaças e trairagens movimentam a trama; ninguém é o que parece ser.  Se soa como uma descrição saída de um thriller político cheio de paranoia, bom, é exatamente nesse playground que a dupla de cineastas está brincando.

E, no entanto, há tantas guinadas e ideias diferentes aqui que o resultado só poderia mesmo ser irregular. Especialmente irritantes são os momentos, poucos, é verdade, em que os personagens decidem soletrar os Grandes Temas do filme para a gente (“é tudo um teatro”). Mas mesmo os percalços fazem parte do charme.

Por fim, é extremamente curioso que, em se tratando de obras e cineastas que dialogam abertamente com os cinemas de gênero, “Ato Noturno” seja bastante superior às pataquadas recentes de nosso suposto maior nome em atividade, Kleber Mendonça Filho (ainda não vi “O Agente Secreto“, e só podemos torcer para que ele nos faça mudar de ideia). Enquanto Kléber, desde talvez “Aquarius”, quiçá “Recife Frio”, parece sempre muito satisfeito em dar um tapinha nas próprias costas, “Ato Noturno” está em busca do risco — e não está nem aí se tem gente vendo.

Autor

  • Marcos Faria

    Marcos Gabriel Faria é artista visual e cineasta baseado no Rio de Janeiro, RJ. Graduado pela UFF em Cinema e Audiovisual, é um dos criadores, ao lado de amigos da graduação, do blog Conversas de Bandejão, para o qual também contribui com textos sobre cinema e arte em geral.

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