Um dos trunfos de “Os Enforcados” é que o diretor Fernando Coimbra não faz questão nenhuma de dar alguma camada de bondade escondida aos personagens que coloca em tela. Todas as pessoas ali são ruins e qualquer lampejo de arrependimento está mais ligado ao medo de ser eliminado do que a uma crise de consciência.

O filme parte de uma premissa que já é curiosa por si só. Imagina se Michael Corleone fosse casado com Lady Macbeth e o cenário de “trabalho” do casal fosse o submundo do jogo do bicho, no Rio de Janeiro? É nesse contexto que “Os Enforcados” cresce a cada vez que dobra a aposta e fica mais e mais absurdo. 

Em uma mansão eternamente em obras e que grita decadência e cafonice, a Lady Macbeth da história é Regina (Leandra Leal) e o Michael Corleone é Valério (Irandhir Santos), um homem que renega, mas desfruta de todos os benefícios do “negócio de família” e que após uma passagem de bastão, passa a comandá-lo. 

Sem nenhum espaço para condescendência, o filme provoca risadas a cada novo desdobramento bizarro. Em um conjunto de atores que criam tipos que beiram a caricatura – algo que, nesse universo farsesco, cabe perfeitamente – é em Leandra Leal que Coimbra tem, mais uma vez, o norte da trama. 

Se em “O Lobo Atrás da Porta” ela encarna a crueldade, aqui ela é o retrato da ambição de alguém que é o elo mais fraco de uma frágil cadeia – e quando ela percebe isso, o filme aproveita toda a riqueza da personagem para colocá-la no centro de um grupo completamente amoral. Seja desesperada enquanto canta a versão de Marília Mendonça para o clássico “Muito Estranho” ou nas trocas engraçadíssimas com Irene Ravache (eu assistiria a uma série só com as duas personagens), Leandra desconhece qualquer limite para criar uma Lady Macbeth made in contravenção.

Ao beber na fonte de clássicos para criar uma história totalmente brasileira, Coimbra (que também roteiriza o filme) prova que segue como um autor com discurso provocador, principalmente quando resolve chacoalhar a história. Quando ele concretiza isso e o filme já está bem estabelecido para quem o assiste, qualquer coisa ali vale. E esse, definitivamente, é o caso de “Os Enforcados”.

Autor

  • Camila Henriques

    Crítica de cinema afiliada à Abraccine e votante do Globo de Ouro. Integra o Coletivo Elviras, que reúne críticas de cinema de todo o país. Podcaster que ama um filme com cara de sábado à noite. Fã de novelas mexicanas, sempre arruma uma forma de associar A Usurpadora com o filme que acabou de assistir.

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