Pode passar o tempo que for, mas, não me acostumo em ver produções nortistas de animação. Apesar dos avanços tecnológicos e de profissionais competentes, tirar do papel um filme do gênero em meio a escassez de recursos financeiros mínimos sempre precisa ser celebrado como um avanço para o audiovisual da região. Melhor ainda é saber que “Planeta Fome” consegue ser uma boa produção ainda que com ressalvas.
Dirigido por Édier William, a produção de Rondônia aproveita a animação para pensar uma Amazônia do futuro – no caso, Porto Velho no ano de 2135. Quem espera um olhar otimista pautado no discurso de preservação da floresta ou por um viés de maior valorização para a região nos embalos do discurso da COP-30, terá uma surpresa: “Planeta Fome” retrata a capital rondoniense de forma inóspita em um preto e branco que espelha a frieza de uma sociedade marcada por desigualdades brutais.
Este pessimismo se mostra ainda maior quando observamos que a mãe e o filho, protagonistas de “Planeta Fome”, encaram problemas atuais projetados como ainda rotineiros para daqui a 100 anos: pessoas comprando osso no açougue ou indo em um lixão para se alimentar, pedintes na porta de bancos, inflação, falta de moradia e de respeito, desamparo, assédio no transporte público e até o fim do Serviço Único de Saúde. Impossível não relacionar o curta a “Vidas Secas” (com direito, inclusive, a uma Baleia) em que se troca a luz solar inclemente pela brutalidade do asfalto e da poluição urbana.
Enquanto se concentra nestas mazelas, “Planeta Fome” consegue construir muito bem o martírio da mãe e do filho. Por isso, soa tão deslocada a inserção de citações bíblicas e ainda a resolução da história em uma confusa sequência pós-créditos que busca dar uma sensação mais amena à forma chocante como a trama havia terminado no primeiro momento. Deixa a sensação de que o curta não sustenta por completo o quão chocante a realidade apresentada pode ser e tenta aliviar com uma mensagem espiritual.
Isso, entretanto, não impede “Planeta Fome” de ser uma obra incômoda como precisa ser para chamar a atenção sobre o grau de desumanidade que podemos chegar como sociedade. Ainda existe muito chão até 2135 para evitarmos cenários de barbárie como vimos tão frequentemente defendidos por figuras sem compromisso algum para com o próximo. E saber que uma animação vinda do Norte do Brasil possa trazer este alerta é ainda mais importante. Que venham mais!













