Uma das grandes virtudes de Mucura, curta rondoniense dirigido por Fabiano Barros é a maneira que ele trabalha o seu horror psicológico com ecos sobrenaturais em uma ambientação única para extrair uma dinâmica ágil das questões emocionais que norteiam os conflitos que movimentam a trama.

Nela, acompanhamos Marta (a ótima Kaline Leigue), uma mulher que tem diversos traumas familiares e que se vê diante de eventos estranhos ocorrendo dentro da sua casa, na qual residente com a filha (Manuela Braga) e a mãe (Agrael de Jesus), ao mesmo tempo que precisa lidar com um ninho de mucuras que infestam os canos da residência.

Responsável ao lado de Rafael Rogante pelo adorável e premiado Ela Mora Logo Ali que faturou há dois anos os principais prêmios do Festival Olhar do Norte – Melhor Filme do Júri Oficial e Júri Popular, atriz e roteiro –, além de ganhar três Kikitos (filme, atriz e roteiro) no Festival de Gramado, Fabiano Barros surpreende por fazer um trabalho mais denso e pautado em um terror claustrofóbico que exige que o público exercite a sua percepção para compreender os fenômenos inexplicáveis que rondam a mente psicologicamente fragilizada de Marta.

Se no trabalho anterior, o diretor enveredava com muita sensibilidade pelo amago da força materna em romper as dificuldades da esfera social, intelectual e pessoal através da imaginação, aqui em Mucura ele abraça a maternidade a partir do realismo mágico para discutir os lutos e as perdas simbólicas de uma mãe lutando contra seus próprios fantasmas emocionais para manter a sanidade mental.

É inegável que uma das forças do trabalho de Fabiano é o rigor estético cuidadoso em que trabalha o único cenário do trabalho: a atmosfera espacial da casa, traz uma dimensão intimista que enriquece muito a proposta narrativa em razão dos enquadramentos que se aproximam e distanciam do rosto da protagonista para retratar a dor emocional, além de planos pelo alto e por baixo que ajudam a enviesar o conflito psicológico de Marta, transmitindo visualmente ao público uma clara representação da sua desordem mental pelas lentes da câmera.

Essa ação densa lembra como a psique pode ser explorada em espaços claustrofóbicos para mostrar o medo humano em situações íntimas da mesma forma que Roman Polanski apresentou no clássico Repulsa do Medo e David Cronenberg em Spider – Desafie Sua Mente.

Isso é perceptível também nos símbolos que aparecem em Mucura. Ao trabalhar o contexto entre a realidade e o delírio, a obra ilustra a força do luto materno e o sentimento de culpa nos comportamentos dissonantes de Marta. O próprio cenário da casa – toda fechada e repleta de símbolos religiosos – sugere, nas entrelinhas, a opressão religiosa atuando – alimentada pela figura da mãe vivida por Agrael de Jesus – no medo e na culpa da personagem em lidar com a realidade traumática, possivelmente devido a morte da filha.

É curioso que a figura da mucura que infesta a própria casa e que que dá título ao curta, geralmente associada a uma visão preconceituosa de um animal ligado as pragas, sujo e perigoso, é visto por algumas culturas ancestrais como símbolo da resiliência e adaptação em diferente ambientes. Esse ponto de vista se adequa a situação da protagonista na sua luta entre a vida e a morte, sendo a mucura juntamente com água (outra elemento recorrente no curta) dois paralelos interessantes sobre a necessidade de sobrevivência diante do estado de impotência em que se encontra.

Senti apenas falta de explorar melhor esses simbolismos dentro do horror psicológico já que no drama familiar ele é bem delineado. No geral, Mucura com sua atmosfera tensa e sombria, oferece um curta psicológico inquietante e que te leva a mergulhar fundo em um espiral de loucura onde passado e presente se misturam de uma maneira enigmática para desafiar a percepção do que é real ou não.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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