A pandemia do novo coronavírus impactou a sociedade brasileira como um todo. Mas, talvez um dos segmentos mais prejudicados tenha sido a produção cultural independente, que, em grande parte, dependia de plateias e aglomerações em espaços fechados.

Soma-se isso a uma das cenas mais tristes que o país já presenciou nos últimos anos: altos números de enterros diários sendo registrados dia após dia, enquanto médicos e cientistas corriam contra o tempo para tentar entender como vencer esse “inimigo invisível”.

É neste cenário caótico de medo e incertezas que “Terra Nova” se situa. Com 22 minutos de duração, o novo curta-metragem de Diego Bauer apresenta a história de Karoline (Karol Medeiros), uma atriz de teatro que decide sair de casa durante a pandemia para solicitar o auxílio emergencial em uma agência da Caixa. Ela é acompanhada de sua irmã recém-demitida (Isabela Catão) que vai tentar reaver seu emprego.

O vazio da paisagem urbana

Nos curtas anteriores, “O Tempo Passa” e “Enterrado no Quintal“, Bauer ambientou as histórias, respectivamente, nos bairros Compensa e Lírio do Vale. Desta vez, a paisagem urbana do bairro Colônia Terra Nova, localizado na zona norte de Manaus, ganha destaque.

Com grande parte das pessoas em isolamento social, o bairro marcado por uma área de intenso trânsito de carros e pedestres acaba perdendo espaço para grandes ruas vazias e sem movimentação.

Destaque para a ótima direção de fotografia de César Nogueira e a envolvente trilha sonora de Pablo Araújo que, juntos, acentuam a melancolia das personagens “perdidas” em lugar com casas amontoadas, emaranhados de fios e resquícios de uma floresta outrora existente.

KAROL E ISABELA: ATUAÇÕES DE ALTO NÍVEL

Bem desenvolvida, a trama conta com belas cenas em silêncio e outras com diálogos provocativos, principalmente, na conversa entre as irmãs e o agente bancário. Além disso, Bauer apresenta pequenos elementos durante o enredo que vão se costurando até chegar ao clímax do curta.

Outro acerto foi na escolha das atrizes que dão vida às irmãs do curta: Karol entrega uma personagem mais calma e centrada que sua irmã, mesmo aparentando estar desamparada e sem perspectiva. Enquanto Isabela, mesmo sendo coadjuvante, demonstra capacidade de cativar o público sem muito esforço com sua grande atuação.

Ambas conseguem demonstrar, por meio de suas personagens, que apesar dos conflitos, o apoio familiar é a melhor ferramenta para se vencer uma crise, seja ela econômica e/ou sanitária.

A invisilibização do artista na pandemia

Escrito e dirigido por Diego Bauer, “Terra Nova” tenta mostrar como a pandemia dificultou a “sobrevivência” de profissionais independentes na sociedade brasileira, como a classe artística, por exemplo.

Estes, que já eram vítimas de cortes orçamentários, acabaram ficando ainda mais desamparados por falta de políticas públicas efetivas.

A reflexão que fica é que mesmo com todas as dificuldades, artistas independentes resistem e entregam boas produções com poucos recursos.

‘3×4’: na simplicidade, a imensidão dos sentimentos

“3×4” marca ótima estreia de Juliana Tizatto na direção e roteiro a partir de grandes atuações de Andira Angeli e Isabela Catão.

‘Tarde Dentro da Tarde’: um rio de lugares comuns

Já que o rio sempre teve especial destaque nos filmes de Rafael Ramos, Tarde Dentro da Tarde talvez seja apenas um caso de leve maré baixa.

‘Jamary’: fantasia amazônica perdida em sucessão de problemas

Do básico do plano-contraplano a uma história sem rumo, Jamary, de Begê Muniz, se mostra uma grande confusão.

“A Terra das Estrelas Distantes”: a eterna busca do que é ser amazônida

“A Terra das Estrelas Distantes” parece querer nos lembrar, que a verdade do nosso passado também permanece escondida de nós mesmos.

‘Flores Secas’: melodrama de Arnaldo Barreto cai na maior armadilha dos curtas-metragens

Com tantos personagens e pretensões temáticas, Flores Secas, de Arnaldo Barreto, não consegue dar conta de praticamente nada que aspira.

Crítica | ‘As Versões que você fez de mim’, de Roger Barbosa

“As versões que você fez de mim” tenta ser intimista e reflexivo, mas a construção do protagonista se distancia desses dois aspectos.

‘Antes de Hoje’: curta carece de densidade ao abordar juventude marcada pela pandemia

Curta de James Bentes, ‘Antes de Ontem’ peca com superficialidade e sem contundência para tratar de jovens na pandemia.

‘Sete Cores da Amazônia’: longa amazonense experimenta altos e baixos extremos

Dirigido por Ana Lígia Pimentel, “Sete Cores da Amazônia” se atrapalha em trama urbana, enquanto cresce ao partir para a floresta.

‘Obeso Mórbido’: conto cru sobre obsessão, corpo e identidade

Obeso Mórbido é um forte conto sobre um indivíduo e suas lutas obsessivas e o vazio interminável do homem e seus (des)prazeres.

‘Márcia Antonelli – Das Palavras à Sobrevivência’: cinema de luta, memória e identidade

Mariellen Kuma entrega um curta metragem que usa as palavras para dar o tom ao seu cinema e mostrar como a jornada, quando reconhecida, entrelaça afetos.