Entre 1970 e 1975, o diretor italiano Michelangelo Antonioni cogitou a Amazônia para um dos cenários de “Technically Sweet”, projeto que acabou por nunca sair do papel. Seria interessante ter uma visão do Rio Amazonas pelas lentes de um dos cineastas mais estilísticos e enigmáticos. Ao invés disso, tivemos um repórter fugindo pela Europa.

Em uma mistura de seu título original com o título internacional, “O Passageiro – Profissão Repórter” traz David Locke (Jack Nicholson), um repórter frustrado que se depara com o corpo de um homem desfalecido ao ser enviado em missão no Norte da África. Querendo recomeçar a vida, assume a identidade do cadáver. O sujeito, porém, logo descobre que o morto era um perigoso traficante de armas e percebe que a liberdade que tanto almejou não viria tão fácil.

Toda a trama – identidades trocadas, negociações escusas, fugas e alguém que segue o protagonista sem motivo aparente – soa como um grande clássico de Alfred Hitchcock. De certa forma, o longa é uma versão mais introspectiva e filosófica do que seria um clássico do mestre do suspense. É engraçado pensar que o mesmo cunhou Antonioni de “pretensioso”. Apesar do ponto de partida e do fio que permeia toda a história, o diretor foge do que talvez pudesse ser lido como um thriller, para explorar questões pertinentes ao pertencimento e identidade do homem, em uma sociedade que aprisiona, frustra e esvazia relações.

A visão estilística e filosófica de Antonioni tenderia a afastar o grande público – eu inclusive. “Profissão: Repórter”, entretanto, não é o caso: ainda que disponha de um roteiro introspectivo, o filme consegue estabelecer uma ponte com o espectador, algo próximo de um sentimento de identificação. Pelo menos uma vez na vida, você já não pensou em sumir de tudo e todos? Locke assume esse risco por quem o assiste. 

Isso mesmo com o protagonista praticamente não conhecendo exatamente quem era aquele sujeito após conhecê-lo rapidamente em pequenas conversas, mas o suficiente para invejá-lo. Locke enxerga uma saída para a promessa de uma nova vida, e a agarra sem pensar duas vezes. Interessante que os personagens priorizam o diálogo à ação, ignorando a moral. Talvez daí saia a conexão. Locke faz tudo aquilo que pensamos ou queremos fazer, mas não temos a coragem. Mas a sua coragem não o impede de estar envolto em uma teia de mentiras, que ele mesmo criou para escapar. A questão principal aqui talvez seja: a liberdade realmente existe?

Antonioni pretende abordar é que, Locke, mesmo usurpando outra identidade, continua preso. Se antes encontrava-se oprimido por um casamento fracassado e um trabalho infeliz, e agora, de repente como um traficante de armas, também se mantém aprisionado, tendo que mentir e buscar soluções para driblar não somente criminosos, como a polícia, a própria esposa e amigos. Vemos o título se justificar, perante um repórter que pula de locação em locação, enfrentando os mais diversos desafios, em busca da verdade, não necessariamente de algo, mas de si mesmo, ao mesmo tempo que é um passageiro de uma viagem que não se imagina onde o destino. O trunfo de “O Passageiro” é não tentar buscar respostas para dúvidas, e sim deixá-las esclarecidas por si próprias. E 50 anos depois, essas dúvidas ainda pairam no ar.

Jack Nicholson contrasta com seu papel em “Chinatown”, do ano anterior e indicado ao Oscar, e “Um Estranho no Ninho”, do mesmo ano e vencedor do Oscar. Assim como o filme, ele é limpo de excessos, quase inexpressivo, fazendo um retrato perfeito da incógnita que é David Locke e o que ele realmente busca. A personagem de Maria Schneider o complementa, entrando na história como uma mulher independente, destemida e disposta a colaborar com a louca fuga a lugar algum. Ao final, é ela quem o verdadeiramente enxerga, enquanto sua esposa, que o tanto buscou, finge não o reconhecer. Não é um filme de romance, mas temos um encontro de almas. 

Marcado pelos seus planos sequências, exaustivamente debatidos e referenciados, o longa tem muito mais a mostrar do que uma estética, ainda que muito bonita e bem feita – e extremamente trabalhosa, segundo relatos. Destaca-se muito mais por seu roteiro. “O Passageiro” não é um filme complexo, pelo contrário: despido do pedantismo de “Blow-Up – Depois Daquele Beijo” (1966), Antonioni traz uma história simples, envolvente, quase hitchcockiana, de fácil assimilação. E é aí que reside sua vitória. Ainda que não tenhamos tido Michelangelo rodando em terras amazônidas, temos um ótimo filme para a posteridade.