De “Amores Materialistas” a “Luta de Classes”, Caio Pimenta traz a primeira parte das previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Filme.

SEM CHANCES

Parece loucura, mas, já dá sim para descartar muitas produções na corrida de Melhor Filme do Oscar 2026.  

Toda a esperança de um romance inesquecível não vingou em “Amores Materialistas”. A proposta confusa da diretora/roteirista Celine Song de fazer uma história de amor cínica e realista, ainda que com ternura, sabotou a reunião do trio Dakota Johnson, Pedro Pascal e Chris Evans. Tornou-se alvo de críticas da imprensa especializada e do público de modo geral. 

“Superman” e “Quarteto Fantástico” cumpriram a missão de divertir os fãs de quadrinhos, além de render boas bilheterias. Para o Oscar, entretanto, nenhum deles conseguirá ir além das categorias técnicas até pela força que outros blockbusters deverão chegar até o fim do ano. 

Da safra do Festival de Cannes, “The Mastermind” é mais um filme de Kelly Reichardt ficando pelo caminho da temporada. A produção passou longe de se destacar na França, está passando à margem dos festivais do segundo semestre e será lançada pela MUBI nos EUA em 17 de outubro sem maiores alardes.  

Já “Eleanor the Great”, a estreia de Scarlett Johansson, é aquele filme simpático, uma Sessão da Tarde agradável e inofensiva. Traz a June Squibb como a principal atração, mas, nem mesmo ela deve vingar no Oscar em uma disputada categoria de Melhor Atriz. Sem chance alguma de aparecer em Melhor Filme. 

 

Se “O Esquema Fenício” mostra Wes Anderson ali naquele modo automático do cinema bem executado dele, “Die My Love” dividiu bastante Cannes e traz o histórico de esquecimento da Lynne Ramsay junto à Academia – “Precisamos Falar sobre Kevin” e “Você Nunca Esteve Realmente Aqui” foram esnobados no Oscar. Jennifer Lawrence poderia até ser a esperança para uma recuperação, mas, a estrela perdeu espaço para outros nomes na corrida de Melhor Atriz. Sem ela, não sobra mais nada. 

Mesmo problema enfrentado por “Sound of Falling”: o drama alemão ganhador do Prêmio do Júri em Cannes viu a concorrência das produções internacionais subir demais. O estilo mais hermético da Mascha Schilinski complica uma possibilidade de conseguir espaço até mesmo em Melhor Filme Internacional. Hoje, o foco está nesta categoria e não no prêmio máximo. 

E o que falar de “A Vida de Chuck”? O drama comandado pelo Mike Flanagan venceu o prêmio do público de Toronto ano passado, mas, a Neon preferiu segurar para a atual temporada. A decisão tirou todo o hype do projeto, colocando-o em segundo plano.  

Para complicar, o forte mercado feito pelo estúdio com os principais títulos internacionais da temporada sob o seu comando piorou consideravelmente o cenário para “A Vida de Chuck”. Todo o potencial de ser uma obra capaz de falar com os mais diversos públicos a partir de uma trama capaz de emocionar e instigar o espectador ficou pelo caminho. Improvável demais que consiga dar a volta por cima. 

 POUCAS CHANCES

Hora de falar daquela turma que está em situação complicada, mas, ainda possui uma esperança do milagre de emplacar no Oscar 2026 de Melhor Filme. 

Três candidatos internacionais estão neste patamar: “No Other Choice” parecia fortalecido com os elogios da crítica em Veneza, mas, sair sem nenhum prêmio foi um balde de água fria. Impossível não lembrar da situação problemática do Park Chan-Wook, diretor brilhante que viu “Oldboy”, “A Criada” e “Decisão de Partir” serem ignorados no Oscar. Talvez seja um sinal de que a novela pode se repetir. 

 

“La Grazia” foi bem em Veneza com a vitória do Toni Servillo em Melhor Ator. O Paolo Sorrentino já é um nome conhecido da Academia, inclusive, com uma estatueta por “A Grande Beleza”. Se tem adoradores, o cineasta italiano também possui muitos que detestam suas obras. Complicado aparecer entre os 10 finalistas. 

 

Já Richard Linklater aposta na paixão do Oscar por filmes que abordam o mundo do cinema. “Nouvelle Vague” vai fundo nisso ao trazer os bastidores do clássico “Acossado”. Sem causar grandes paixões em Cannes e com a Netflix possuindo diversas opções na temporada, vejo fôlego curto para o longa na corrida pela categoria máxima. 

“Nouvelle Vague”, aliás, não é a única aposta do Linklater: o texano coloca para jogo também “Blue Moon”, o qual teve uma passagem muito mais elogiada na Berlinale. Este lançamento no início do ano, bem distante da temporada de premiações, complica os planos da Sony Pictures Classics para impulsionar o drama. O estúdio espera que as passagens pelos festivais de Toronto e Nova York ajudem nesta etapa, mas, até o momento, parece correr bem bem por fora. 

 

Diretores gigantes também estão com poucas chances para Melhor Filme. Não será desta vez que Spike Lee retornará ao Oscar máximo. “Luta de Classes” pode até contar com o prestígio de Denzel Washington, mas, a adaptação de “Céu e Inferno”, de Akira Kurosawa, foi recebido sem maiores empolgações tanto em Cannes como na chegada à Apple.  

“Imperfeitamente Perfeita” é a nova comédia de James L. Brooks, ganhador do Oscar com “Laços de Ternura”. Apesar das presenças de Woody Harrelson e Jamie Lee Curtis e do ótimo diretor de comédias que Brooks sempre foi, o novo filme precisa ser muito muito acima da média para contrariar todas as previsões. Tomara que consiga, mas, parece improvável. 

Vindo de “Nada de Novo no Front” e “Conclave”, o Edward Berger era aguardado com muitas expectativas em “The Ballad of the Small Player”. A exibição em Telluride, porém, jogou um senhor balde de água fria com críticas nada animadoras. Colin Farrell até foi bastante elogiado, mas, o suspense se mostrou frio demais sem conseguir empolgar o público. Em meio a tantos filmes da Netflix mais fortes, a tendência é que seja deixado em segundo plano. 

Também do streaming, “Train Dreams” foi exibido no Festival de Sundance no início de 2025, sendo bastante bem-recebido pela crítica – 97% de avaliações positivas de acordo com o Rotten Tomatoes. O estilo de direção do Clint Bentley foi comparado ao Terrence Malick e o drama a “First Cow”. A exibição em Toronto neste segundo semestre busca reposicionar o longa na temporada para ter alguma chance. Corre por fora. 

 

De Sundance vem ainda “Sorry, Baby”, ganhador do prêmio de roteiro no festival e ainda exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes. O projeto todo capitaneado pela Eva Victor aborda temas delicados como abuso sexual, interrupção de gravidez e luto.  

O maior problema será conseguir espaço na A24 em meio à disputa entre “Coração de Lutador” e “Marty Supreme”, os carros-chefes do estúdio para o Oscar 2026. Acho que briga mais por uma vaga em Roteiro Original do que um improvável espaço em Melhor Filme. Situação parecida de “If I Had Legs I’d Kick You”, sendo que, neste caso, o foco será Melhor Atriz com a Rose Byrne, premiada na Berlinale. 

 

“Anemone” aposta na força do Daniel Day-Lewis para estar na categoria máxima. Em todas as seis indicações da carreira, o britânico viu o longa em que estava concorrer a Melhor Filme. Se ele chegar na disputa de Ator principal, abre-se uma porta para o projeto da Focus Features. 

 

Se “Father Mother Sister Brother” busca repetir o feito de “A Forma da Água”, “Roma”, “Coringa” e “Nomadland” de ganhar o Leão de Ouro em Veneza e participar de Melhor Filme, a trajetória do Jim Jarmusch na Academia puxa as chances para baixo. Grandes filmes como “Amantes Eternos” e “Paterson”, por exemplo, ficaram pelo caminho.  

A MUBI, com certeza, deve focar os trabalhos no drama com a Cate Blanchett e o Adam Driver, mas, ainda sinto o filme um pouco para trás na corrida perante os favoritos. 

“O Beijo da Mulher-Aranha” busca repetir o feito do original, finalista do Oscar 1986. A exibição em Sundance no início do ano teve boa repercussão, especialmente, para a Jennifer Lopez, candidata a Melhor Atriz Coadjuvante.  

A questão é saber se haverá espaço para duas adaptações de musicais da Broadway em uma mesma temporada com tantos candidatos. “Wicked: For Good” deve ocupar este espaço, logo, a tendência é que “O Beijo da Mulher-Aranha” fique em segundo plano, conseguindo, no máximo, indicações em áreas técnicas como Figurino e Design de Produção, além de tentar uma difícil vaga para J.Lo em coadjuvante. 

“F1”, “A Hora do Mal” e “Entre Facas e Segredos 3” buscam o espaço dos filmes populares na categoria máxima. O Joseph Kosinski se escora em ter levado o improvável “Top Gun: Maverick” tão longe no Oscar. A aventura estrelada pelo Brad Pitt deve alcançar boas indicações nas áreas técnicas, especialmente, em Som e Montagem. A carinha de propaganda da Fórmula-1 e uma trama fraquinha de personagens nada carismáticos, porém, atrapalha pretensões maiores. 

A terceira parte da série protagonizada por Daniel Craig pretende dar um salto em relação aos demais. O primeiro filme até conseguiu uma inesperada indicação a Roteiro Original, enquanto o segundo ficou a ver navios. “Wake Up Dead Man” obteve muitos elogios em Toronto com destaque para Josh O´Connor e Glenn Close. 

A questão é se vai além disso: os dois “Entre Facas e Segredos” também foram recebidos com empolgação, bastante elogiados, Rian Johnson e elenco exaltados, mas, na hora das indicações, nunca vingava. Com a Netflix possuindo, pelo menos, três candidatos com condições melhores a Melhor Filme, imaginar que eles vão mirar neste novo longa me parece improvável. A saída seria um desempenho fora do comum na chegada dele ao streaming para mover as peças a favor dele. 

 

Por fim, “A Hora do Mal” é uma das grandes surpresas de 2025: o terror do Zach Cregger chegou discretamente e se tornou um dos filmes de terror mais elogiados do ano com sua história dividida em tantos personagens, um ponto de partida intrigante e desfecho imprevisível.  

 Isso também, claro, veio com hate para cima do filme com reclamações sobre furos do roteiro – uma bobagem sem tamanho, diga-se. O grande problema para “A Hora do Mal” é a disputa interna com “Pecadores” – ambos são da Warner Bros, sendo que o longa do Cregger tem parceria da New Line – e a dificuldade de ver a Academia abrindo espaço para dois filmes de terror na mesma temporada. Se não houvesse o longa do Ryan Coogler, ficaria mais fácil.