1999 é considerado de muita excelência para o cinema. Filmes como Matrix, O Sexto Sentido, Beleza Americana, Clube da Luta foram lançados e, até hoje, possuem a marca da atemporalidade. Longe da fama desses conhecidos, Rosetta também teve sua estreia no mesmo ano capturando a força do cinema independente. Agora, 27 anos após seu lançamento, se faz interessante revisitar e observar os traços distintivos que fizeram da produção belga algo de tamanho valor.
O filme começa. Uma câmera avista uma jovem a andar apressadamente pelos corredores de uma fábrica. Inconformada, acaba de saber que seu período de treinamento terminou – em outras palavras, está desempregada -, e avisada pelo chefe da empresa, um ataque desmedido de fúria a domina chegando até a agredir o ex-patrão. Esse é o início de Rosetta, obra que fez o mundo conhecer os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, cineastas titulares da produção e que teriam seu cinema marcado por cenários onde o realismo grita e escarra sem piedade. Aqui temos um grande exemplar disso, sendo a protagonista Rosetta (Emilie Dequenne) uma adolescente que vive em um trailer com a mãe em uma situação de extensa dificuldade; o alcoolismo da mãe só agrava a situação da moça que para sobreviver decide encontrar um trabalho a qualquer custo, e essa procura lhe fará cometer ações questionáveis.
Em pouco menos de 90 minutos, somos testemunhas de uma criatura isolada a perseverar por um estado de sobrevivência. Nesse sentido, a esmagadora realidade de Rosetta nada mais é que um retrato fiel de um indivíduo retraído em meio à força das condições sociais presentes, a qual a perspectiva quase pessimista da produção se vale da natureza sóbria e desoladora dos passos da personagem-título. O longa é conduzido de forma crua e bruta, onde uma câmera inquieta pesca todo a angústia e o desalinho da personagem que se vê presa em seu própria engrenagem de ações em busca de um respiro. Portanto, chega até certo ponto em que nos sentimos ansiosos junto com Rosetta por nutrirmos a mesma incerteza dos caminhos da jovem, isso mostra a densidade narrativa que o drama prega mesmo com seu temática cruel.
Desse modo, acompanhar as tentativas vãs de Rosetta em cuidar da mãe claramente entregue ao vício pelo álcool, por exemplo, já nos mostra que os problemas da jovem se apresentam desde o lar e sua desestrutura emocional é latente e traduz muito da conjuntura familiar e precária a ela atribuída. Com isso, vemos a garota buscar diferentes lugares à procura de um trabalho que gere sustento imediato, o olhar esvaziado de Dequenne é duro e devastador e traça contornos sufocantes ao senso de urgência da personagem. Como vendedora em uma loja de roupas ou atendente de uma lanchonete de waffles, a caçada de Rosetta é voraz qual uma fera a cercar uma presa, seu instinto é de restar nos lugares em que se pode ou habitar naqueles que não se há de caber.
Ainda sobre Emílie Dequenne, há de se enfatizar sua entrega absoluta neste filme. De muitos olhares, ruídos e balbucios, a saudosa atriz (na época com 18 anos), impõe uma soberania justa e assustadora para sua Rosetta. A direção rude dos Dardenne poderia espalhar muito de sua interpretação, mas isso não ocorre pelo domínio obstinado e silencioso de Dequenne que ganha cada espaço, e em certo ponto, de tão próximos a ficar daqueles lugares, existe o sentimento de tentarmos entender aquela mente, aquela mulher perdida pela vida.
O trunfo da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1999 foi especial para destacar o alcance do drama dos Irmãos Dardenne, não só como produto cinematográfico importante, mas a ser objeto de forte relevância cultural, inclusive, na Bélgica. Exemplo desse impacto foi a transformação social causada com a aprovação da Lei Rosetta, um projeto criado pelo governo Belga para evitar o desemprego juvenil crescente no país na década noventista; Lei esta cujo nome ganhou inspirado no filme, sendo a potência deste um fator importante para que o projeto fosse reconhecido e levado em frente.
Dada a natureza introspectiva de sua narrativa, Rosetta é uma análise interessante e desoladora sobre o enfrentamento do ser perante à miséria humana e social. A crueza significativa da obra se sustenta pelo olhar intimista para com sua protagonista e dos caminhos errôneos inevitáveis que justificam a tomada de um indivíduo desesperado em viver.














