Eu me pergunto se Silvino Santos, filmasse hoje em dia, usaria drones. Antes dos drones, é claro, havia helicópteros — mas não no tempo de Silvino, pioneiro dos anos 1910. O fato é que, graças à sua praticidade e ao relativo baixo custo, os drones são a forma mais fácil de trazer um certo verniz profissional às imagens, um certo valor de produção.
O problema é que, a não ser que você seja um Michael Bay em “Ambulância” ou um Jerzy Skolimowski em “Eo”, o drone é um recurso um tanto quanto rasteiro (com o perdão da piada). À parte esses raros usos criativos da tecnologia, o mais frequente é o profissionalismo grosseiro e a competência morna de imagens à la Canal Off. Não à toa tantos youtubers adoram usar drones em seus vídeos de viagens: é rápido, prático e absolutamente convencional.
É provável que Silvino Santos, cujo “Amazonas, o maior rio do mundo” traz um caráter de propaganda para exportação, ficasse apaixonado pelos robozinhos voadores. Mas o uso exaustivo desse recurso em “Xingu, nosso rio sagrado”, de Angela Gomes, deixa um gosto amargo, sintomático dos problemas gerais do filme. Uma história urgente como a que Gomes quer retratar merece mais do que táticas de embelezamento fácil.
Que a hidrelétrica de Belo Monte é um monumento à destruição ambiental não há dúvidas. Que o rastro de lama e morte deixado por sua construção esteja envenenando o Xingu, menos ainda. E que o problema seja de suma importância e mereça o tratamento documental é simplesmente inconteste.
Mas que tratamento? Posto de outra forma, como dar conta de algo tão urgente de modo a mobilizar o espectador? Pode-se perdoar o didatismo do documentário de Gomes — que filme-denúncia não é didático? —, mas a obra está impregnada de convencionalismos que minam qualquer senso de urgência.
São os drones, sim, mas também a trilha, com os típicos tambores e flautas fazendo exatamente o que esperamos deles, e o próprio formato de entrevistas. Claro, dada a agudeza dos fatos, o filme registra momentos de real pungência em alguns de seus testemunhos. Mas, justamente por isso, optar pelo lugar-comum do bom gosto oficial não faz muito além de minar a singularidade e pujança do que há defronte da objetiva.
São problemas antigos. Afinal, o mesmo Godard que bradava “não uma imagem justa, mas uma imagem, justamente”, passou a velhice lamentando a incapacidade do cinema de testemunhar o horror do Holocausto. Não sei como Godard se sentia em relação aos drones, mas imagino que, diante de uma tragédia ambiental, buscaria evitar imagens revestidas de uma estética tão esteticamente bela.














