A Argentina escolheu Belén para representar o país na corrida pela 98ª edição do Oscar. Baseado no livro Somos Belén, da jornalista Ana Correa, o filme se inspira em um caso real ocorrido no país e acompanha a luta da advogada Soledade Desa para libertar e fazer justiça por Julieta, uma jovem acusada de infanticídio e aborto após uma emergência médica. A batalha judicial das personagens acaba se transformando em um movimento crescente pelos direitos das mulheres.

O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com a diretora, roteirista e protagonista Dolores Fonzi e com a advogada Soledade Desa, responsável pela defesa da Belén da vida real. Elas falaram sobre a responsabilidade do projeto, o papel do cinema diante de governos ultraconservadores e o delicado equilíbrio entre ficção e realidade.

Cine Set — Belén foi produzido em um momento em que a Argentina vive sob um governo ultraconservador. O filme aborda temas como violência, silenciamento das mulheres e o sistema como vilão. Como você vê o cinema como espaço de debate na América Latina?

Soledade Desa — Belén nos lembra, a nós mulheres, da luta. O cinema pode servir como ferramenta de memória: memória de como construímos nossos direitos e da força que tivemos para conquistá-los — a mesma força que teremos para defendê-los.

Em um momento em que os conservadorismos declararam guerra às mulheres e às diversidades, quando o próprio presidente argentino classificou o aborto como assassinato e patologizou orientações sexuais diversas, Belén não apenas oferece esperança. Ele constrói memória, e essa memória é o que alimenta a resistência.

O sujeito político feminista é atacado justamente porque foi responsável pelas maiores conquistas de direitos dos últimos 20 anos. Este filme nos reencontra nesse lugar de resistência. Por isso, ele dialoga com o norte, o sul, o leste, o oeste — com o mundo inteiro.

Pergunta — Belén evidencia profundas desigualdades sociais. Que papel você acredita que o cinema desempenha ao tornar essas realidades visíveis e, ao mesmo tempo, questioná-las?

Dolores Fonzi — Como sou da Argentina, sinto que o cinema é uma forma de colocar na mesa aquilo que queremos mudar, aquilo que precisamos mostrar e civilizar. Se você viesse de uma sociedade sem problemas — o que, obviamente, não existe — talvez as histórias fossem outras. Mas a Argentina, com suas desigualdades e crises, acaba sendo o alimento do nosso cinema.

Precisamos contar, por meio do cinema, o que está acontecendo. Acho que é justamente a partir dos conflitos que o cinema cresce. Como diretora e atriz argentina, sinto que essa crise e esses problemas são o melhor material para colocar em cena.

Pergunta — Como você encontrou o equilíbrio entre realidade e ficção ao contar esse caso dentro de um filme que segue uma estrutura mais clássica?

Dolores Fonzi — Para mim, havia uma responsabilidade em filmar Belén de maneira formal, quase como um filme de tribunal, à moda dos anos 1990. No nosso caso, o julgamento termina muito cedo, logo no começo da história, então precisamos construir o movimento que tiraria a personagem daquela situação.

O grande desafio era encontrar o equilíbrio. Temos um caso real e um roteiro profundamente comprometido em ser fiel à história, mas chega um momento em que você precisa deixar o caso ali e começar o filme. Entrar no universo do cinema exige respeito, humanidade e o tom certo. Se você conta a história de forma excessivamente solene, ela se aproxima demais do documentário. Nós queríamos fazer um filme de ficção.

O que mais me orgulha é termos conseguido criar uma experiência verdadeiramente cinematográfica a partir de um caso real, sem nunca soltar a mão do espectador até o final. Conectar-se com o público foi, sem dúvida, um dos maiores desafios.

Pergunta — Para ser diretora, roteirista e atriz principal, você deve ter se aprofundado bastante nesse caso emblemático. Como foi esse processo? E houve algum conselho da Soledade que ajudou na sua interpretação?

Dolores Fonzi — Para mim, o mais importante foi escrever em colaboração constante com a Soledade. Literalmente 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu podia ligar ou mandar mensagens a qualquer momento, e ela sempre respondia. Houve um verdadeiro entrelaçamento entre a vida dela e a minha.

Também foi fundamental expor partes de mim mesma, tornar o filme pessoal para que ele pudesse se tornar universal. Esse processo acabou nos aproximando muito — hoje somos amigas. Quando você passa tanto tempo com alguém em quem confia, começa a se comunicar de forma parecida, a se misturar. Isso aconteceu comigo ao construir essa personagem que é a Soledade, mas que também sou eu.

Essa entrega, esse gesto de se doar, é algo que o público percebe. As pessoas são muito gratas por isso, como se recebessem um presente.

Pergunta — Que elementos pessoais você incorporou na personagem?

Dolores Fonzi — Eu sou mãe, uma mãe que trabalha, e venho de uma família muito católica — diferente da Soledade. Ironizei um pouco essa minha infância católica. Pensei nos meus filhos, no feminismo e na enorme carga mental que as mulheres carregam.

Também quis mostrar essa capacidade multitarefa que temos. Posso ser diretora, roteirista e atriz justamente porque sou mulher e consigo lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. Mas isso também cansa, claro. Mostrar essa humanidade era essencial.

A religião aparece como algo meu — aquela medalha da Virgem, por exemplo, eu realmente ganhei quando era jovem. Além disso, tudo o que aparece no filme sobre ativismo faz parte do meu próprio ativismo. As reuniões, a organização coletiva, tudo isso foi vivido por mim e levado para o filme. Hoje, posso dizer que minha religião é o cinema.

Pergunta — Qual foi sua reação ao assistir a Belén pela primeira vez? O filme capturou as sensações vividas durante o caso?

Soledade Desa — Está tudo muito bem capturado: as emoções, as contradições, não apenas as minhas, enquanto advogada, mas também as contradições geradas por um ambiente hostil. Um ambiente em que se cruzam o conservadorismo religioso, políticas governamentais igualmente conservadoras e um sistema judiciário que acaba funcionando como ferramenta para disciplinar corpos.

A sociedade, o momento histórico e o contexto estão muito bem retratados. O filme consegue traduzir isso com precisão.

Pergunta — Depois de viver esse caso por anos, o que você sente que o filme captura de forma mais verdadeira sobre a realidade das mulheres criminalizadas por emergências obstétricas?

Soledade Desa — Acredito que o filme captura essa realidade de forma muito fiel, mesmo com elementos de ficção. Belén reflete um contexto real: o da criminalização das emergências obstétricas, onde religião e política se misturam e convicções morais autorreferentes tentam se impor à sociedade inteira.

A lei é ignorada e se recorre à ferramenta mais violenta, o direito penal, para restringir o direito de decidir. E essa perseguição não se dirige a qualquer mulher: ela atinge sobretudo mulheres pobres, racializadas e em situação de maior vulnerabilidade social.

Essa injustiça estrutural, que aprofunda desigualdades, está retratada de forma exemplar no filme.