Irmão do também ator Júlio Andrade, Ravel Andrade também trilhou o caminho artístico, atuando não apenas como ator, mas também como músico. Com uma carreira sólida na televisão e no cinema, Ravel ganhou ainda mais visibilidade ao protagonizar a série Raul Seixas: Eu Sou, disponível no Globoplay, na qual encarna o icônico cantor brasileiro. No longa Asa Branca – A Voz da Arena, ele interpreta Miltinho, melhor amigo do protagonista.
Em entrevista ao Cine Set, Ravel fala sobre a importância de Miltinho em sua vida, comenta a experiência no set, o trabalho coletivo com o elenco e como sua veia musical acabou contribuindo para a trilha sonora do filme.
Cine Set – O Miltinho representa o arquétipo do amigo do protagonista, aquele suporte ao personagem principal. Você teve alguma referência pessoal ou da cultura pop para construir o Miltinho?
Ravel Andrade – Quando eu li o personagem, vi que ele tinha uma importância no sentido de ser um pouco a consciência do Asa Branca. É um pouco o papel desse amigo: ser suporte para o protagonista.
O que me interessou no Miltinho, primeiro, foi entender esse mundo do rodeio e o que ele representa no Brasil. Quando cheguei a Fernandópolis, onde filmamos, não precisei buscar muitas referências cinematográficas. Eu estava vivendo o dia a dia daquela cultura nova que se apresentava para mim.
Fiquei em um hotel, comecei a conviver com as pessoas e a entender o tamanho dessa cultura no nosso país. Não apenas no sentido da terra, mas do povo que ocupa essas terras. Sabemos que existem latifúndios gigantes, mas também há muita gente que vive ali, e essa cultura estava presente na cidade o tempo todo.
Fui absorvendo o Miltinho, encontrando o personagem. Tive encontros muito especiais com jovens que deixaram suas famílias para morar ali, com o sonho de se tornarem peões de rodeio. Isso foi muito enriquecedor para mim.
A amizade entre os dois personagens também foi essencial para criar esse suporte humano para o Asa Branca. Criei o Miltinho a partir daquela terra, convivendo com aqueles meninos. Vê-los arriscando suas vidas me deu estofo para representar esses garotos invisibilizados. Tentei trazer humanidade ao Miltinho e criar um personagem real, com uma história cativante dentro do filme.
Cine Set – O Guga contou que, nos bastidores, seu lado músico foi importante para a criação de uma trilha do filme. Conte um pouco sobre esse processo criativo.
Ravel Andrade – Sou músico, compositor e tenho uma banda, mas nunca tinha feito trilha sonora antes. O Guga me perguntou se eu tocava, eu disse que sim, mas hesitei, porque em muitos projetos meus personagens tocavam instrumentos, e eu vinha de uma sequência de trabalhos assim.
Eu não queria que o Miltinho tivesse essa característica o tempo todo, apenas nos momentos de diversão e intervalos no set. Mesmo assim, o Guga insistiu.
Na hora, peguei o violão e cantei um refrão, porque a música tinha letra. O Guga usou só a harmonia e a melodia instrumental. Segui minha intuição e fiz algo meio cowboy, boiadeiro. Todo mundo ficou impressionado — inclusive eu.
Voltei para o hotel e, a partir do refrão, desenvolvi o resto da canção. Gostaram tanto que a música foi inserida em vários momentos do filme, com arranjos diferentes. Fiquei muito feliz. Foi algo que nasceu do acaso e acabou sendo de suma importância para o filme. Sou muito grato ao Guga pela oportunidade.
Cine Set – Você falou do seu processo individual, mas como foi o processo coletivo com o elenco? De que forma eles contribuíram para a criação do Miltinho?
Ravel Andrade – Depois de um tempo na profissão, a gente cria nossos próprios métodos. Mesmo assim, o trabalho é sempre coletivo. Eu dependo do outro ator: preciso entender como o personagem dele reage às intenções do meu.
O primeiro processo em sala, na leitura do roteiro, é essencial. Você escuta as vozes, vê os rostos, está ali com o diretor, os produtores, os atores, toda a equipe, tendo o primeiro contato com aqueles personagens.
O Guga é um diretor agregador, com escuta muito atenta. O Felipe é extremamente generoso e nos traz para o eixo. A Lara é minha amiga de muitos anos, temos uma afinidade enorme. O Fábio Lago é uma referência para a minha geração. O Carlão é alguém que admiro muito; tivemos conversas profundas.
Ficamos cerca de um mês e meio a dois meses em processo de sala, com a preparação da Fernanda. Eu e o Felipe improvisamos muito durante as gravações. Houve cenas em que pedi para refazer completamente, porque percebi que o caminho era outro.
Em suma, a gente vai criando o tempo todo.
Cine Set – Qual aprendizado do Miltinho você leva para a sua carreira como um todo?
Ravel Andrade – O Miltinho se conecta comigo nesse lugar do sonho, mesmo que os sonhos dele não tenham exatamente a mesma beleza dos meus. É um sonho arriscado, que pode levá-lo à morte, mas ainda assim é um sonho.
Coloquei no Miltinho o objetivo desses jovens do rodeio: o prazer em um lugar bruto. Ele me ensinou que todos os sonhos são possíveis e válidos, e que precisamos respeitar o sonho do outro. Aprendi muito sobre essas pessoas e sobre essa cultura.
Cine Set – Sabendo que o personagem não é o foco da narrativa, mas tem um arco próprio, qual foi o maior desafio ao interpretar o Miltinho?
Ravel Andrade – Já fiz personagens protagonistas e papéis muito pequenos, que às vezes não permitem um grande desenvolvimento, o que pode ser frustrante. Passei a buscar, nos roteiros, qualquer chance de humanizar esses personagens.
Esse ponto se tornou essencial para eu aceitar um papel. Quando li o roteiro e percebi que o Miltinho tinha uma história humana, capaz de gerar identificação, fiquei muito interessado.
Eu olho primeiro para a essência do personagem e, depois, para as possibilidades de desenvolvimento. Acredito que todo personagem pode ter uma história, desde que o roteiro e a direção permitam. O Miltinho foi uma pedra bruta lapidada por mim e por todos ao redor.













