A trajetória de Rita Lee é mais do que conhecida do público brasileiro, afinal, a Rainha do Rock nacional está na vida pública desde o fim dos anos 1960 quando estourou com a psicodelia dos Mutantes. Depois veio a expulsão do grupo formado ao lado dos irmãos Batista, o Tutti Frutti e a carreira solo consagrada com hits e mais hits. No meio disso, uma história turbulenta com as drogas, a versatilidade artística impressionante, o romance com o marido Roberto de Carvalho até o fim da vida.

Toda esta impressionante vida foi levada para os livros em uma fantástica autobiográfica que se tornou best-seller. Agora, o público poderá conferir a Santa Rita de Sampa e sua louca vida nos cinemas com o documentário “Ritas”. Dirigido por Oswaldo Santana e Karen Harley, a obra faz um mergulho nos registros audiovisuais de videoclipes, entrevistas, filmes mesclado com filmagens pessoais dos últimos anos da roqueira.

Aproveitando a chegada tardia nos cinemas de Manaus de “Ritas”, o Cine Set conversou com Oswaldo Santana sobre os bastidores e processos artísticos do documentário:

Cine Set – O documentário é livremente inspirado na autobiografia da Rita que foi um best-seller. Quais os pontos positivos e negativos de partir de uma obra tão lida com tantos detalhes, rica, além da própria vida da Rita que é bastante conhecida? 

Oswaldo Santana – Só teve ponto positivo. Você pode se debruçar diante de tanta fase, tantas situações legais, polêmicas, muitas coisas importantes. Não faltavam assuntos. A Rita é essa artista que sempre teve bastante atenção da mídia, logo, basta procurar e você acha alguma coisa. Fora que havia a possibilidade de sempre reviver os momentos musicais. É uma delícia. Equilibrar tudo isso é sim uma dificuldade.  

A (produtora) Biônica Filmes comprou os direitos autorais da biografia e fomos para uma entrevista executada pela Karen Harley (codiretora). Também fizemos todo um trabalho para resgatar e encontrar materiais de arquivo. Ao mexer nestas peças, você começa a fazer uns encaixes construindo os primeiros alicerces. Depois, vem uma segunda rodada focada nas artes a partir dos acervos fotográficos, uma atividade feita pela Eloá Chouzal. Paralelo a isso, vieram ainda os trabalhos de animação do Gabriel Bitar e de direção de arte do Ricardo H Fernandes envelopando tudo isso. 

Cine Set – No livro, a Rita abordou dois episódios muito duros – o estupro quando criança e a prisão. O documentário não chega a abordar o primeiro assunto e o segundo não chega a ter tantos detalhes. Como você preferiu abordar estes assuntos mais espinhosos, delicados? 

Oswaldo Santana – Tem uma questão da gente até querer falar do assunto, mas, não ter material de arquivo, a base do nosso documentário, sobre tais questões. Nosso trabalho foi feito a partir de materiais pré-existentes ou daquilo que extraímos nesta grande entrevista.  

Também há o fato da Rita ser maior do que tudo isso, logo, mesmo que se queira falar de todos os assuntos mais importantes da vida dela, fica impossível abordar tudo. Adotamos uma postura de que o ‘menos é mais’, ou seja, valia mais esticar uma música ou outra a mais para que o público pudesse revivê-la, indo mais pelo caráter emocional do que racional. 

Cine Set – Falando nisso, a Rita traz uma carreira de clássicos da música desde os Mutantes passando pelo Tutti Fruti até o repertório solo. Tudo bem que há aquelas impossíveis de não estarem no filme, mas, qual foi aquela canção mais desconhecida, mais lado B que você julgou imprescindível de estar no documentário? 

Oswaldo Santana – Teve uma redescoberta que fiz porque, apesar de já ter escutado, nunca havia mergulhado nela como ocorreu desta vez. É “Corista de Rock”. Para mim, ela tomou uma outra dimensão depois que a escutei novamente.  

Sobre a seleção das canções, há um primeiro recorte de tentar entender a mensagem e emoção que essa música está passando e como está se encaixando. Depois, é preciso pensar nas emoções que aquela canção te causou ao longo dos anos e as situações que a envolviam. Acaba sendo a lembrança da lembrança (risos). Tudo para encaixar no roteiro de forma equilibrada.  

Cine Set – Quanto tempo de material gravado pela Rita você teve acesso? Teve algo que ficou de fora que você lamentou? 

Oswaldo Santana – É um material muito, muito rico. Tivemos essa supergenerosidade de ter acesso a este material. Nesta troca, a gente disponibilizou um celular para que a própria Rita gravasse, logo no começo da pandemia. Veio tanta coisa boa; quilômetros de material (risos).   

A relação com os bichinhos é algo muito especial de olhar de forma tão íntima. Ela no dia a dia da casa e depois com neta também são marcantes. Dava para fazer um filme de 24 horas da Rita que seria incrível.   

Cine Set – A Rita foi cantora, compositora, apresentadora, escritora, artista visual, atriz e tudo o que podemos imaginar dentro das artes e ainda mãe, esposa, defensora dos animais, porra louca. Para você, esta versatilidade multifacetada das Ritas qual a que mais te fascinou descobrir? Qual aquela que deveria ser mais valorizada? 

Oswaldo Santana – Eleger a mais fascina, sem dúvida, é ficar com a letrista, algo impressionante. Como eu trabalho com imagem, o lado atriz da Rita é muito gosto de olhar de perto. Já a surpresa foi ver como ela era talentosa nas artes plásticas com os desenhos que fazia. 

Também me comovia as relações com a família, as crianças e, claro, com o Roberto. 

Cine Set – Por fim, você assistiu “Rita Lee: Mania de Você”? Teve algum receio quando soube que também estava produzindo um filme sobre ela? 

Oswaldo Santana – Não, não teve isso. A Rita é essa fazenda de projetos legais, logo, é natural que surjam muitas coisas. Dá para lançar uns 5 filmes por ano sobre ela. Eu estava muito confiante com o nosso recorte voltado exclusivamente para os cinemas partindo da autobiografia com ela mesmo falando sobre a vida. Isso é uma delícia.