PARA LER OUVINDO:
O que seria da gente sem o som? O que ele representa, as cores que imaginamos em cada tom, a vida que ecoa pelo sonoro e que transforma? Aos que não ouvem, a vibração, o vibrar da emoção, o que toca o corpo, o que acalma a alma. Se o som fosse um cheiro, qual seria? Um sabor, uma cor? Subjetividades do ser humano que necessitam do som/vibração para comunicar-se.
Essa introdução pseudopoética (não pude resistir!) se ancora muito mais na questão do título do filme e o contexto que ele nos apresenta do que a história propriamente dita, roteirizada por Ben Shattuck. Aliás, o que Oliver Hermanus (da refilmagem “Viver”/Ikiru, 1952) quer nos contar? A história do som ou do romance entre dois rapazes (Paul Mescal e Josh O´Connor) no início do século passado?
Vejam bem, compreendo o som aqui também soa como uma metáfora de ligação entre dois homens apaixonados por arte, pela música e um pelo outro. O som do coração, dos corpos pulsantes dos dois que se transformam em um e em descobertas desses jovens. Contudo, o espaço-tempo e a maneira como Hermanus expõe esses sentimentos, soa demasiadamente sutil e nem todos os diretores conseguem nas sutilezas colocar todos as emoções afloradas com tão pouco que diz muito. Aqui, soa datado e até presunçoso. Ao assistir o longa é impossível não perceber a influência de “O Segredo de Brokeback Mountain” e “O Reino de Deus”, dois dos melhores filmes LGBTQIAPN+ feitos neste século, com esse segundo também protagonizado por O´Connor.
A história em si é interessante desde o primeiro encontro dos dois até a primeira separação com David (O´Connor) indo para a guerra e Lionel (Mescal) com uma carreira acadêmica musical em ascensão. Até que David volta e, juntos, partem país afora em busca de catalogar canções folclóricas tão ricas para a cultura, mas pouco exploradas no meio acadêmico. Essa é a ótima primeira metade do filme. Entretanto, há um momento em que se pergunta, qual é de fato o pano de fundo de “A História do Som”? Não que seja confuso, mas não tem, sem me permitem o trocadilho, o sabor do som dos outros filmes citados.
E isso é um problema também para a narrativa do filme. Ele é pudico, convencional e que parece que pouco acredita em explorar dos seus interpretes um pouco mais de ousadia. Não que filmes do gênero precisem disso, mas não tem, como se diz aqui no Brasil, o molho! Josh O´Connor em sua afetação e grande presença reafirma esse lugar de um dos melhores de sua geração, enquanto Paul Mescal, carece de mais emoções cênicas como vimos em “Aftersun” e “Todos Nós Desconhecidos”.
“Chorar é som”, já canta Letrux. E faz parte. De alegria, de tristeza, de amor. Como pertencente à comunidade LGBT também estou saturado de filmes que colocam a tristeza e o abandono como única causa nas nossas vidas, embora tenha mesmo. Aqui, apesar de bonito esteticamente e muito interessante na primeira metade, o som começou alto e foi perdendo o volume tão sutilmente quanto seu filme que só percebemos quando ele se estendeu mais do que deveria.













