Denise Fraga é, há décadas, um dos rostos mais queridos e consistentes do cinema e da televisão brasileira. Desde os trabalhos marcantes em “Hoje”, “As Melhores Coisas do Mundo”, “3 Teresas” e “A Vida Invisível”, a atriz vem reafirmando uma capacidade rara de unir delicadeza e firmeza dramática. Em Livros Restantes, dirigido por Márcia Paraíso, Fraga encontra um dos papéis mais íntimos e luminosos de sua carreira recente.
O longa acompanha Ana, uma mulher que decide revisitar o próprio passado ao devolver livros marcados por dedicatórias, rastros de relações e versões de si mesma que ficaram em suspenso ao longo dos anos. A premissa, aparentemente simples, nasce de um gesto profundamente pessoal da diretora, um sonho que condensava perdas, mudanças de casa, livros danificados, memórias que insistem em permanecer. A partir desse impulso, Márcia constrói um filme que não só observa o ato de recordar, mas também o peso e o alívio de se reconciliar com as próprias feridas.
Há uma força muito particular em Livros Restantes: ele faz da memória um movimento físico, quase artesanal. A cada reencontro, o filme convida a uma pequena arqueologia afetiva, revirando camadas de passado que muitas vezes evitamos tocar. Em paralelo, o território de Florianópolis, especialmente a Barra da Lagoa, não é apenas cenário, mas organismo vivo. A relação da diretora com a comunidade local molda o ritmo, o sotaque e a textura da narrativa. Ao iluminar a Florianópolis que o Brasil raramente vê, marcada pela pesca artesanal, por laços comunitários e por tradições ameaçadas pela gentrificação, o filme respira com a mesma pulsação das pessoas que o compõem.
Denise Fraga entrega uma atuação sutil, madura e profundamente verdadeira. Parte disso vem do cruzamento entre personagem e vida real: a atriz, às vésperas dos 60 anos e ainda atravessando o luto pela mãe, encontra em Ana uma espécie de espelho emocional. O resultado está nos silêncios longos, nos olhos marejados que não se rendem ao melodrama e na vibração muito humana de alguém que tenta se “reinaugurar”, como a própria Denise descreve. A parceria com Márcia Paraís, que conduz um set majoritariamente feminino, só acentua o cuidado estético e afetivo que vibra em cada plano.
A música “Deixa a Porta Aberta”, que permeia o filme em diferentes versões e ritmos, funciona como fio condutor dessa jornada. Quando surge na cena final, em tom de samba, cristaliza a delicadeza que Livros Restantes carrega desde o início: a ideia de que a memória não é um quarto trancado, mas uma porta que podemos escolher abrir com coragem.
Em conversa com Mariana Goulão para o Cine Set, Denise e Márcia falam sobre feridas, pertencimento, reinauguração e sobre a importância de olhar para aquilo que nos construiu, mesmo que doa. A entrevista, repleta de afeto, só reforça o que o filme já deixa claro: Livros Restantes é uma obra que não exige, mas convida. Convida a viver, a lembrar, a reencontrar, a abrir as portas que deixamos encostadas. E, principalmente, a devolver para nós mesmos as versões que esquecemos no caminho. Confira abaixo:
Cine Set — Para começar, em uma frase ou palavra, o que “Livros Restantes” pede do público num momento em que temas como memória e pertencimento estão tão presentes?
Denise Fraga — Acho que o filme dá uma vontade de viver, uma vontade de pôr a mão na massa da própria vida. Ele pede que você olhe para a vida que está tendo e se pergunte se quer mesmo continuar nela, ou se deseja se reinaugurar.
Márcia Paraíso — Eu acredito que não conseguimos seguir adiante, ser totalmente livres, sem resolver feridas da nossa história. O filme tem momentos de prazer, mas também de dor, e a personagem percebe que só conseguirá seguir em frente se encarar essas dores do passado.
Cine Set — O filme nasce de um gesto muito íntimo — devolver livros com dedicatórias. Como surgiu essa ideia? Houve algum acontecimento pessoal que despertou o desejo de contar essa história?
Márcia Paraíso — Sim. Quando me mudei para Florianópolis, em 2003, passei por várias casas diferentes, sempre carregando meus livros num Fiat Uno. Perdi muitos por motivos diversos: cachorro que comeu, goteira, crianças que rabiscavam, umidade. E havia aqueles livros especiais, que carregavam memória, cheiros, marcas, a dedicatória, o momento em que os recebi. Eram quase como “livros-pessoas”.
Um dia, sonhei que reencontrava essas pessoas para devolver os livros. A premissa veio desse sonho. Depois fui desenvolvendo a ideia em formato de roteiro.
Cine Set — A presença da comunidade local é muito forte. Como o território e essas pessoas influenciaram as escolhas narrativas e visuais do filme?
Márcia Paraíso — É 100%. Eu quis pensar o filme “pelo lado de dentro”, falo de um território em resistência, ameaçado pelo processo de gentrificação, verticalização e comercialização do espaço público — algo que se intensificou no pós-pandemia.
Mostro uma Florianópolis pouco conhecida pelo Brasil, a cultura das comunidades tradicionais ligadas à pesca artesanal. A Barra da Lagoa é a maior comunidade pesqueira da ilha, com tradições que seguem o ritmo da tainha, do camarão, da enchova, da lula. E há também o sotaque manezinho, o jeito de falar — essas são as veias do filme.
Cine Set — Denise, a Ana é uma personagem que lida com memórias de forma profunda, mas sempre com delicadeza. Como foi encontrar esse tom sem cair no sentimentalismo?
Denise Fraga — O filme chegou para mim num momento muito específico da minha vida. Eu tinha acabado de fazer 60 anos, perdi minha mãe em janeiro, estava me reinaugurando. Então, embora tenha construído uma personagem, há camadas minhas ali, da Márcia e da Ana Catarina.
Em muitos momentos, eu me via na tela. O cinema deflagra muito — o olhar, o pensamento. Às vezes, eu terminava uma cena e tinha vontade de chorar, não por estar em cena, mas pelo que tinha atravessado dentro de mim.
O filme virou uma pérola na minha estante, na minha alma de artista. E a vivência foi muito especial: uma equipe majoritariamente feminina, amorosa, acolhedora. Esse set fez toda a diferença.
Cine Set — E ao longo do processo — nos livros, nas dedicatórias ou em alguma cena específica — houve algo que te tocou de forma especial ou ampliou sua relação com a Ana?
Denise Fraga — O tempo todo eu lembrava de mim, das relações da faculdade, dos amigos, das encruzilhadas da vida. A gente sempre pensa: “E se eu tivesse sido outra coisa?”, “E se tivesse tomado outro caminho?”.
Tem uma cena muito especial para mim. Pedi para a Márcia uma cena em que eu apenas estivesse sentada, olhando. Conseguimos filmar. Na versão final, ela incluiu imagens em Super 8 feitas pelo pai da diretora de fotografia, Kiki Krieger — com a Kiki criança, e também comigo, de certa forma.
É como se, naquele momento, eu não fosse apenas a Ana Catarina ou a Denise; era uma fusão das camadas do tempo. Essa cena me emociona muito.
Cine Set — Para encerrarmos, qual cena ou sensação vocês acham que ficará na cabeça do público quando ele sair da sessão?
Denise Fraga — Acho que as pessoas vão ter vontade de viver, de reencontrar amigos, de recuperar laços. Talvez até de tirar da gaveta aquele projeto abandonado. O filme traz uma injeção de ânimo para quem quer se reinaugurar, independentemente da idade.
Márcia Paraíso — Para mim, fica o “Deixa a Porta Aberta”. A música atravessa o filme: começa em ritmo de fado, aparece em versão original, um samba de evolução, e também na voz de uma pescadora de 86 anos, a Capitã Zenaide. E há a cena final, com elas dançando; essa imagem fica comigo — e acho que ficará com o público também.














