Produtor e ator de premiados curtas-metragens do cinema amazonense e do Festival Olhar do Norte 2024, Ítalo Bruce realizou no mês de outubro uma oficina de capacitação em curtas-metragens. O workshop da Te Norteando, iniciativa feita em dupla com Karol Medeiros, teve como objetivo desmistificar o processo de produção cinematográfica, estimulando a criatividade de iniciantes e apaixonados pelo cinema.
Italo Bruce compartilhou fundamentos e vivências, abordando desde a elaboração do projeto até a logística de filmagens, com um olhar atento às riquezas culturais e geográficas da região Amazônica. Ao final da oficina, ele citou que espera que os participantes tenham saído mais confiantes e preparados para transformar suas ideias em realidade, contribuindo assim para o fortalecimento do cinema local.
Cine Set – O que te motivou a criar essa oficina e lecionar para iniciantes ou pessoas que já trabalham no meio audiovisual, mas que não possuem tantas experiências na área de produção de curta metragens?
Ítalo Bruce – A oficina integra a Te Norteando, projeto do qual eu e a (atriz) Karol Medeiros fazemos parte. A partir de um intercâmbio, participamos de programas que nos permitiram vivenciar experiências de produção de curtas-metragens em festivais e em locais que discutem a produção do audiovisual. Então, a gente tentava buscar conectar essas experiências com nossas perspectivas de cinema de baixo orçamento ou com as verbas disponíveis que tínhamos para trabalhar.
Acreditamos que a principal dificuldade, falando nessa questão de produção para iniciantes e produtores amadores, é, muitas vezes, ter uma boa ideia de projeto, mas não saber como desenvolvê-la. E como isso se aprende muito mais na prática: desenvolver um conceito, identificar quem pode colaborar conosco e como aproximar outras pessoas para trabalharmos em conjunto. Resolvemos assim, criar essa oficina para oferecer esse suporte.
Essa era a direção que buscávamos seguir, conectando o conhecimento que obtivemos com os curtas-metragens que produzimos, que foram de baixo orçamento, mas que tiveram uma recepção positiva em festivais nacionais e internacionais. E queríamos, a partir disso, mostrar uma perspectiva de que é possível, sim, fazer cinema de qualidade com uma equipe técnica bem preparada e entender o papel do produtor nesse processo.
Cine Set – Quais são os maiores desafios na hora de preparar conteúdos e as metodologias para essa oficina?
Ítalo Bruce – As viagens e experiências com os nossos curtas-metragens ensinaram a importância de trazer para o nosso círculo pessoas com habilidades que ainda não possuímos. Esse é um ponto sensível que tentamos incorporar nas oficinas que criamos.
A dinâmica iniciou com um momento conceitual, imprescindível para a produção. A ideia é entender onde estamos, com o nosso ‘fazer’ manauara e como podemos conceber um projeto, apresentá-lo para a equipe e parceiros, e orientá-los nesse sentido.
Como metodologia seguinte, utilizamos a dinâmica do RPG, que promove intimidade entre os participantes. Através dos “cases”, como chamamos, analisamos e desvendamos o processo de produção, como no caso do curta “Enterrado no Quintal“, atualmente abordado na oficina. Esta narrativa nos ajuda a simular situações e problemáticas nas equipes de produção e técnicas, permitindo explorar diferentes soluções.
O feedback dos participantes tem sido positivo. Por exemplo, um diretor de fotografia relatou que, embora tenha ideias para curtas, nunca pensou ser possível realizá-las. O ambiente do RPG e do imaginário ajuda a despertar essa consciência e termos uma participação dos alunos de forma mais efetiva e dinâmica.
Cine Set – Você acha que Manaus ainda tem uma carência na questão de incentivos e políticas públicas para acessar oficinas e cursos no que tange a educação artística?
Ítalo Bruce – Como contrapartida do projeto Te Norteando, a oficina é gratuita, o que já é um mecanismo do edital contemplado pela Lei Paulo Gustavo para fomentar essa formação e multiplicar os saberes que desenvolvemos. Um desafio significativo é a criação de “bolhas de trabalho” que se retroalimentam, muitas vezes não dando espaço para quem está começando. Essa é a velha questão da pessoa que precisa estagiar, mas não consegue experiência.
A Te Norteando, por meio de suas oficinas, busca trazer à luz questões que ficam confinadas nessas bolhas, promovendo a ideia de que os mecanismos de trabalho devem ser compartilhados, assim como a importância de bons fornecedores que colaboram. Isso também representa uma valorização da economia local.
Frequentemente, há uma ilusão de que o ambiente de produção cinematográfica é complexo e distante, o que pode sufocar a capacidade de criar. A produção e a criação artística, começam individualmente, e precisamos valorizar esses espaços. É fundamental promover trocas e convidar aqueles que estão um pouco mais tímidos a ocupar um lugar de emancipação.
Entendo que existem várias questões, como a verba e como ela é aplicada, mas é importante que as pessoas se organizem. As vozes dos trabalhadores devem ser ouvidas, especialmente sobre suas necessidades reais. Uma das pautas que está em voga é a formação; há verbas disponíveis para que muitas pessoas possam se capacitar e, assim, produzir com qualidade.
Cine Set – Quais dos seus trabalhos na área de produção de curtas metragens você trouxe para oficina e como você contextualizou em suas aulas?
Ítalo Bruce – Trouxe para a oficina os curtas-metragens que produzi, que foram realizados em diferentes zonas da cidade e também no interior, como “Castanho“, em Iranduba.
Meu principal interesse em trazer esses curtas metragens, como “Enterrado no Quintal”, “Terra Nova” e “Castanho”, foi destacar as especificidades que podem surgir de cada local, cada geografia e cada tipo de locação que trabalhamos.
Esses curtas abordam problemáticas distintas. Ao me referir a “problemáticas”, não estou falando necessariamente de questões negativas relacionadas a um lugar, mas sim de desafios logísticos e locacionais. Cada zona apresenta suas particularidades, com cores, movimentos e atmosferas únicas.
Por exemplo, “Enterrado no Quintal” foca nas ruas e bairros, evidenciando questões de violência que ocorrem nesses ambientes. Acredito que isso é relevante trazer essa discussão para a oficina, aliando-a à temática do RPG. Já “Terra Nova”, por sua vez, retrata a geografia do bairro e as dificuldades que os artistas enfrentam para acessar auxílios, refletindo um pouco sobre como nos adaptamos nessas situações.
Por fim, “Castanho” aborda uma zona diferenciada, trazendo uma nova perspectiva sobre locações e diálogo com comunidades no interior do Amazonas, além de apresentar uma logística distinta, uma vez que nos afasta um pouco do nosso cotidiano. Portanto, os três curtas oferecem panoramas variados sobre como fazemos cinema na nossa região, contribuindo para a formação e a reflexão dos participantes da oficina.
Cine Set – Como você espera que os alunos saiam no final da sua oficina em questão de conhecimento de produção de curta metragens?
Ítalo Bruce – Espero que, ao final da minha oficina, os alunos saiam menos tímidos e mais confiantes em reconhecer suas limitações e em buscar o conhecimento que ainda não possuem. Muitas vezes, ficamos focados apenas no que já sabemos; é fundamental admitir o que ainda precisamos aprender e absorver a experiência de quem admiramos.
Desejo que eles se sintam mais à vontade para se conectar, propor soluções e perceber que é possível produzir seu próprio material, realizando uma autoprodução. É viável criar uma relação de equipe em que todos se concentrem realmente no objetivo comum. Esse, na verdade, é o aspecto mais importante.
Independentemente da produção que eles decidirem realizar, todas precisam ser bem-sucedidas. Não importa os desafios, sejam eles logísticos, geográficos, climáticos, etc. No final das contas, todos desejam que o trabalho resulte bem e com a sensação de que fazer cinema vale a pena, mesmo com poucos recursos.
É possível, de certa forma, desenvolver uma ideia e, posteriormente, buscar a produção e a pós-produção. O essencial é dar movimento às coisas. O primeiro movimento que recebi no cinema foi um ato de confiança: “Vamos lá, vamos fazer, eu confio em você.” É a partir disso que busquei conhecimento.
Por isso, quero que os participantes da oficina saiam com a certeza de que ninguém é apenas “qualquer um”, todos possuem habilidades e capacidades únicas que podem contribuir para o seu próprio campo audiovisual.













