O cineasta amazonense Lucas Martins se prepara para lançar seu novo trabalho, o curta “Um Mal Necessário”, depois da ótima repercussão dos seus filmes anteriores, “O Estranho Sem Rosto” e “À Beira do Gatilho”, que foram exibidos em festivais nacionais e internacionais nos últimos anos. Martins é um apaixonado por cinema de gênero e tem demonstrado esse amor nos seus filmes, onde brinca com elementos do filme policial, do suspense – e até com algumas pitadas de comédia – para criar narrativas que se diferenciam um pouco do padrão do cinema amazonense e ajudam a ampliar o leque das produções do estado.

Conversei com o Lucas Martins sobre “Um Mal Necessário”, que será exibido no Festival Olhar do Norte em breve, no Teatro Amazonas. Foi um ótimo papo sobre cinema.

Cine Set – Primeiro, fale um pouco sobre a história do filme e o que a inspirou.

Lucas Martins – “Um Mal Necessário” é uma comédia fantasiosa com terror, baseado no conto de “Fausto”, onde um jovem ator (Ricardo Gabriel) vende a alma para Mephistófeles – um demônio punk – (Adriano Holmes), a fim de se tornar conhecido. Seu sonho, porém, vira pesadelo quando personagens de filmes invadem a vida real do rapaz e trazem caos a sua noite.

O curta surgiu através de duas necessidades criativas: a de sempre fazer filmes cada vez mais ambiciosos e divertidos para o público e fazer comédia. Já tinha realizado cenas cômicas em curtas como “À Beira do Gatilho” e “Barulhos” e, ao ter resultados positivos do público, vi que era a hora de expandir a ideia e realizar uma comédia. Com o conto de “Fausto”, vi que poderia satisfazer os dois desejos e ainda por cima acrescentar terror e fantasia, gêneros pelo qual também tenho grande paixão.

Cine Set – E quais foram as suas inspirações cinematográficas, para este trabalho?

Lucas Martins – As inspirações por trás da gênese da produção são diversas, indo de Joe Dante (mais especificamente “Meus Vizinhos São um Terror” e o segmento dele em “No Limite da Realidade”), Sam Raimi, Mario Bava, John Landis, “Toby Dammit” do Federico Fellini, “Depois de Horas”, do Martin Scorsese, Looney Tunes e Os Três Patetas. Grandes inspirações para um orçamento e tempo limitado, porém com um resultado que nos deu bastante orgulho.

Cine Set – Fale sobre o elenco. Como foi trabalhar com os atores? Como foi o processo de escolha deles?

Lucas Martins – Os atores são, na maioria, os mesmos com quem trabalhei em “À Beira do Gatilho”. Eles são Ricardo Gabriel, Adriano Holmes e Alexandre Mourão. Tendo a experiência do filme anterior vi que poderia convidá-los para os papéis mais desafiadores em “Um Mal Necessário”.

Alex Jansen, Guilherme Lobo e Jimmy Christian são amigos que já atuaram em outras produções locais e vi que eles poderiam cair bem em seus breves personagens no curta. Por ter pensado em papéis para atores específicos e tendo em mente no que poderiam trazer à mesa de forma criativa, o trabalho com eles acabou sendo bem confortável e leve.

Cine Set – Comente sobre o que atrai você para o cinema de gênero.

Lucas Martins – A possibilidade de contar histórias específicas para essa mídia que talvez em nenhum outro meio iria funcionar. O que Buster Keaton, Jackie Chan ou o Gordo e o Magro fazem é impossível de replicar e ter o mesmo impacto em outra forma de contar histórias. É extremamente cinematográfico.

Cresci vendo “Arizona Nunca Mais”, “Babe 2” (sim, um filme sobre um porco perdido em uma cidade pode ser extremamente cinematográfico – ainda mais quando é feito pelo mestre George Miller), “Os Irmãos Cara de Pau”, “De Volta Para o Futuro“, ” Te Pego Lá Fora” e muitos outros, que impulsionaram o desejo de querer contar histórias no cinema de gênero.

Além do mais, o gênero é a melhor forma de abordar qualquer tipo de tema e ainda por cima chamar a atenção do público ao assunto. Por exemplo, se você pegar um filme como “Vivendo na Corda Bamba”, do Paul Schrader (um filme policial) e “Norma Rae”, do Martin Ritt (um drama), creio que o primeiro acaba tendo uma elaboração mais voraz sobre as condições dos trabalhadores nas fábricas americanas daquele período do que o filme da Sally Field.

Cine Set – Você acha que cinema de gênero tem espaço nos festivais de cinema? 

Lucas Martins – O cinema de gênero, em sua essência, é atribuído ao que é considerado “cinema comercial”. E “cinema comercial” é algo que festivais não vão atrás. Isso significa que o espaço para essas produções é bem pequeno. Na maioria das vezes, filmes com ideias de gênero, mas que são realizados como dramas, entram nesses circuitos com mais facilidade.

Porém ainda existem por aí alguns festivais que dão espaço, mesmo que limitado. Além do mais, tanto no Brasil quanto ao redor do mundo, temos festivais e mostras com foco ao cinema fantástico que abraçam horror, fantasia, comédia, policial e seus diversos subgêneros e mesclas.

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Gravado no fim de julho e início de agosto de 2023, o curta já foi exibido no Taiga Festival, na Rússia, e tem agendadas outras exibições até o fim do ano, incluindo em Salvador e em Roma, na Itália.