Não é todo dia que uma premissa inusitada aparece nos cinemas. No caso de O Bom Menino, a novidade é contar uma história sob a ótica de um cachorro. Através da observação e da ingenuidade do animal, o público acompanha uma experiência audiovisual inquietante, mesmo que não tão imageticamente assustadora.

Por sua condução mais pé no chão e crua, o longa lembra a franquia Atividade Paranormal e Presença, de Steven Soderbergh. Isso para não citar Coragem, o Cão Covarde, desenho animado da Cartoon Network, com uma sinopse semelhante. As junções dessas referências criam uma narrativa sensorialmente imersiva e estimulante por se permitir desenvolver uma perspectiva fora dos padrões.

A direção de Ben Leonberg, estreante em longas-metragens, lembra a toda hora que é uma história sob a visão do cachorro Indy. Seu entendimento e absorção dos acontecimentos é diferente do ser humano, tanto que a câmera está à altura do campo de visão do animal, o que proporciona uma conexão enorme. O Bom Menino quer que o público tenha um vínculo com o Indy e sinta na pele dele as suas percepções, em um exercício de empatia e aproximação com a vida animal.

No entanto, a direção acaba falhando ao não aproveitar o terror: existe uma tensão crescente, porém o longa acaba estacionando em uma perigosa zona de conforto, sem explorar variedades de situações assustadoras ou esteticamente perturbadoras. Muitas das vezes, acontecimentos dentro da história se repetem como uma sombra de uma pessoa ou de algo ao fundo, que é funcional no início, mas depois acaba se tornando um recurso previsível. 

Mas uma coisa é fato: Indy rouba todos os holofotes para si. A equipe do longa realizou um excepcional trabalho de treinamento com o animal para que suas ações fossem orgânicas. A presença dele é magnética, transmitindo muito bem emoções genuínas, como medo, curiosidade, afeto e desconfiança. Leonberg soube explorar bem cada cenário da casa para que o cachorro transitasse de forma natural dentro do ambiente.

O roteiro em suma é uma alegoria sobre a inevitabilidade da morte e o presságio dela, em como certas coisas não podem ser evitadas ou mudadas. O diferencial aqui, é que o entendimento parte da vivência do animal com seu dono. Ainda assim, a narrativa não se preocupa em dar muitas explicações, apenas joga elementos como o passado do avô do dono, para que o público também possa fazer a sua leitura diante dos acontecimentos. O resultado disso é um filme que tem uma carga muito triste e melancólica, visto o final agridoce proposto no longa.

O Bom Menino pode não entregar um terror tão intenso como esperado, mas se sobressai diante de muitos filmes do gênero por usar da vivência de um cachorro para fazer um exercício sobre empatia e ainda por cima, experimentar uma perspectiva cinematográfica distinta e interessante.

Autor

  • Ator, dublador e formado em Produção Multimídia na faculdade Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí, SP. Também produtor de conteúdo do canal Cine Multiverso no YouTube. Cinema é a minha maior paixão. O cinema é uma arte de perspectiva.

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