Os anos 2000 nos deram obras memoráveis que se tornaram símbolos de uma época, pois além de terem toda a singularidade dos seus contos e histórias solenes, reproduzem marcas daquele período com toda a personalidade presente. Completadas duas décadas de seu lançamento, O Diabo Veste Prada é um desses casos em que o tempo fizera o trabalho de estimar sua existência.
O Diabo Veste Prada iniciou em 2003 como obra literária da autora Lauren Weinsberg, sendo que, desde seu escopo, já enchia os olhos de quem tinha acesso ao manuscrito. O tratamento desse esboço foi tão promissor que atraiu a 20th Century Fox que logo adquiriu os direitos do best-seller para uma adaptação. Evidente que não demorou a sair a produção nutrindo uma forte curiosidade de tantos que aguardavam desde o anúncio. De tal modo, é justo destacar esse processo histórico devido ao encontro do estímulo criativo com a confiança executiva.
Há muito a se recordar na comédia comandada por David Frankel. Se pensarmos nas infinitas caminhadas da charmosa Andy (Anne Hathaway) transformada por Nova York; a arrogância cruel e deliciosa de Miranda Priestly (Meryl Streep); os figurinos estonteantes e intermináveis atirados em nossos rostos; a trilha sonora inspirada com Vogue, de Madonna, a embalar toda alma do filme; são vários e vários pontos que se unem e ganham a beleza de um elemento só, preenchido e derramado sem moderação.
A dimensão criada em torno de O Diabo Veste Prada com o passar dos anos é resultado de uma conexão mútua arte-indivíduo, onde há a representação de bons personagens cativantes, além de uma identidade bem concebida que dá ao filme uma brisa particular de elegância e sofisticação – quase intrínseca à sua natureza. Traçada essa linha de revisão, após 20 anos, podemos realçar o impacto cultural do filme como sincronia feliz entre sonho e concepção, onde o lúdico e a realidade caminham próximos e sorriem um para o outro.
Com muito êxito, o filme de 2006 consegue apresentar as particularidades dos personagens, isto é, não apenas a protagonista tem seus traços e contornos atribuídos de forma distinta. A presença de Miranda, por exemplo, faz jus à grandeza e amplitude que mira estabelecer, muito por conta do roteiro sagaz munido pela interpretação soberba e especial de Streep. Desde a sua entrada em cena, o andar ligeiro da editora pelos corredores da Runway; toda essa sequência é carregada de expectativa, e o filme de David Frankel o faz muito bem ao buscar traduzir o espírito implacável e inalcançável daquela mulher e de seu status de liderança.
Nesse sentido, a participação dos papéis coadjuvantes de Emily Blunt e Stanley Tucci oferece apoios interessantes às questões de interação entre os de Streep e Hathaway. Emily possui uma veia séria e centrada mas que esconde a quase todo tempo um olhar irônico, perverso e angustiante em sua dedicação inteira à Runway e Miranda, claro. Tanta a entrega de Emily nesse trabalho é fruto de muito esforço e devoção pela moda, no entanto, não deixa de ser extremamente desgastante estar ali, e a assistente sabe disso. A chegada de Andy pode comprometer a chance de um possível reconhecimento, por isso, a exigência maior em cima da novata. Já Nigel é um fiel e incansável seguidor de Miranda Priestly, dono de um conhecimento inesgotável de figurinos e peças. Cético inicialmente de que Andy vingaria como assistente de Miranda, torna-se o primeiro a estender a mão e introduzir a personagem naquele espaço glamouroso e desafiador.
Sob o olhar deslumbrado do tempo, O Diabo Veste Prada atravessa os anos com sua relevância e poder dentre as imagens presentes no cinema do século XXI. Personagens como Andy Sachs e Miranda Priestly já vivem no imaginário de inúmeros que conhecem a obra, e estarão nas de novos a qual terão contato. O cinema também se pertence dessas histórias de lugares inalcançáveis, mas com propostas tão reais.














