Entrar no cinema para assistir “O Diabo Veste Prada 2” é como reencontrar velhos amigos. O primeiro filme, de 2006, virou xodó de muita gente – meu inclusive -, logo, é simplesmente impossível não ficar feliz ao bater o olho em Miranda Prestley (Meryl Streep), Andy Sachs (Anne Hathaway), Emily (Emily Blunt) e Nigel (Stanley Tucci). Pena a continuação se satisfazer apenas com isso…
Com o retorno de David Frankel na direção, o novo filme sofre com uma história com dificuldades para engrenar e recicla muitos aspectos do original, deixando a impressão de parecer sem ideias novas. Não chega a ser um desastre pelas qualidades já conhecidas de “O Diabo Veste Prada”: o elenco maravilhoso e o luxo dos figurinos e cenários.
Desta vez, o foco reside mais no jornalismo do que na moda. Neste sentido, o diagnóstico de “O Diabo Veste Prada 2” é certeiro com a crise do setor em que as publicações impressas perderam espaço para a velocidade do online, demissões em massa atingem os profissionais, fusões tornam tudo reduzido a nada, investimentos paupérrimos, superficialidade, click baits e os anunciantes pautando o que deve ser publicado. Ainda que a leveza domine as ações, as andanças pela redação, reuniões de pauta, o encontro com as fontes e entrevistados lembram clássicos sobre a temática como “Todos os Homens do Presidente” até “Spotlight”.
Curiosamente o interesse no jornalismo é tão grande que o resto fica em segundo plano. De autoria da dupla Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger, o roteiro não consegue avançar em novas dinâmicas para as personagens. Mais contida pelos novos tempos em que patadas de antigamente podem virar processo por assédio moral (ótima sacada do filme, aliás), Miranda está novamente de olho em uma posição maior, enquanto Andy segue como aquela menina em busca de aprovação e Nigel é o fiel escudeiro, desta vez, sem maiores perspectivas de mudanças. “O Diabo Veste Prada 2” até insinua uma transformação ousada para Emily, mas recua no último minuto. Nas relações entre eles, nada mais do que uma repetição daquilo visto no primeiro filme, o que serve para matar a saudade, claro, mas denota também falta de criatividade.
Com 40 minutos, a continuação parece já ter esgotado todas as ideias a ponto de chegar a me perguntar: “e agora, vai para onde?”. O filme, então, arranja uma virada absolutamente do nada para apontar um novo rumo para a crítica em relação ao jornalismo moderno. Aqui, “O Diabo Veste Prada 2”, infelizmente, chega atrasado ao colocar a mira nos bilionários na comunicação.
Não há nada que vemos aqui que “Succession” e outros tantos projetos recentes para TV e cinema já não tenham explorado anteriormente, incluindo a cansativa caricatura do magnata Benji Barnes, interpretado por um Justin Theroux que merecia papeis melhores na telona. O cansativo jogo de disputa de poder na reta final se agrava com o papel patético de Andy: recuso a acreditar pelo carinho que tenho com a personagem que uma jornalista premiada com 20 anos na carreira nas costas, esperta suficiente para conseguir uma entrevista impossível, treinada por Miranda Prestley, cairia em um golpe tão óbvio como aquele. Fora toda a subtrama dispensável do livro…
Sorte de “O Diabo Veste Prada 2” contar com um elenco absolutamente em sintonia e à vontade. Meryl Streep deixa claro como se diverte fazendo uma diva pop como fica evidente na cena em que sobe a escadaria totalmente plena em meio a más notícias. Já Anne Hathaway traz um carisma arrasador, capaz de derrubar quaisquer resistências com sua energia e sorriso. Mesmo mal aproveitada, Emily Blunt faz o que pode com uma personagem ainda mais cômica do que na primeira parte.
O grande destaque, porém, acaba sendo Stanley Tucci: o discreto Nigel continua sendo o ponto de equilíbrio do quarteto e, agora, com ações decisivas e, finalmente, reconhecidas. Quanto ao restante do time, pena que os novos personagens tenham tão pouco espaço para que possamos nos importar com eles – neste sentido, o que faz Kenneth Branagh por aqui a não ser pagar uns boletos?
O luxo típico da moda em cenários deslumbrantes assim como as participações especiais (incluindo uma estrela pop) mostra como “O Diabo Veste Prada” marcou uma geração. Por mais bem intencionada que seja e capaz de matar nossa saudade de figuras tão queridas, a continuação passa longe de ser marcante como o original.















