Foi na década de 90 que o establishment hollywoodiano passou a levar Clint Eastwood a sério, não apenas como herói das matinês, mas como autor. Não que essa bola já não fosse cantada pelos críticos. Mas foi só em 1992 que seu primeiro Oscar veio – não apenas um, mas dois, como diretor e produtor de “Os Imperdoáveis”.
Ele fez a obra-prima “As Pontes de Madison” em sequência antes de terminar a década, idiossincraticamente, com dois thrillers absolutamente descartáveis (mas não totalmente de desinteresse), “Poder Absoluto” e “Crime Verdadeiro”. Depois disso, ele voltou com tudo: por alguns anos no início do novo milênio, a obra do diretor se tornou arroz de festa do Oscar. “Sobre Meninos e Lobos” e “Cartas de Iwo Jima” foram indicados, mas foi “Menina de Ouro” que lhe trouxe mais um par de estatuetas douradas.
Talvez você se lembre que aquela septuagésima-sétima cerimônia do Oscar colocou “O Aviador” de Martin Scorsese para competir com o melodrama de Eastwood. No duelo de titãs, o cowboy levou a melhor. Não vou reclamar. Agora, se a pergunta é sobre qual dos dois filmes merecia mais – se é que “merecimento” é algo a ser levado em conta em se tratando de premiações -, então vou precisar soltar a mão de Clint e escolher nosso tiktoker geriátrico favorito.
E não é nem o caso de “Menina de Ouro” ser fraco; na verdade, na filmografia de qualquer diretor, seria um ponto alto da carreira. Eastwood, no entanto, não é qualquer diretor.
O ÁPICE DO FILME
Frankie Dunn (Eastwood) é um turrão, um treinador veterano que mantém uma academia de boxe e faz questão de manter pouquíssimos prospectos de sucesso na mão. Um de seus pupilos, por exemplo, é forçado a deixá-lo quando outro empresário lhe oferece a chance de uma disputa pelo título. O que move Frank: autoflagelação, medo ou algum tipo de instinto paternalista que o leva a proteger seus lutadores através do cerceamento? Descobriremos que as três hipóteses se aplicam.
Limpando o chão do ginásio encontramos Scrap (Freeman), ex-pugilista, agora um velho cego de um olho só. Eastwood e Freeman como esses dois veteranos dos ringues são o verdadeiro coração de “Menina de Ouro”. Cada interação que têm é preciosa. A cena em que conversam sobre o par de meias furadas que Scrap faz questão de usar poderia durar por horas em horas. Se há motivo para retornar ao filme, são esses personagens.
Isso e a primeira metade da trama. Porque não mencionei ainda que Maggie (Swank) aparece no ginásio de Frankie exigindo que o coroa a treine. Frankie recusa, mas sabemos como os filmes funcionam. Logo os dois desenvolverão uma relação de pai e filha permeada por gracejos e flertes sutis que, graças ao bom Deus, nunca se transformam em algo nojento. É tudo muito doce nesse filme, mesmo que as fachadas sejam duras e Freeman e Eastwood estejam empregando a versão mais rouca de suas respectivas vozes.
Mas indiquei acima que há uma divisão em duas metades no longa. Na primeira delas, o que importa a Eastwood e ao roteiro de Paul Haggis são as minúcias do balé dentro do ringue. O modo, por exemplo, como um lutador usa o dedão de um dos pés para impulsionar o corpo na direção contrária. Ou a altura correta de um punho em guarda. Ou, em uma veia mais sangrenta (piada intencional), como colocar um nariz quebrado no lugar. São nesses momentos que “Menina de Ouro” se mostra um filme voltado inteiramente para a fisicalidade do mundo do boxe. Entendemos que, para Maggie se tornar uma boa lutadora, não basta desferir socos a torto e a direito. É preciso um tipo de prática corporal, que Eastwood filma com a mesma precisão das trocas de olhares furtivas de “Madison”.
A AMBÍGUA REVIRAVOLTA
Até então, trata-se de um grande e poderoso filme. A coisa desanda levemente com a inescapável virada na trama, quando (spoiler) Maggie se torna tetraplégica. É quando “Menina de Ouro” acaba revelando os cálculos do seu melodrama, todo o planejamento necessário para levar o espectador às lágrimas desenfreadas.
O esforço acaba sendo um pouco demais. A pior parte é que a reviravolta é mesmo necessária, no sentido de que é esse o ponto que o filme está tentando construir desde o início: sobre não chegar lá, mas chegar perto o bastante; sobre o valor da derrota quando se perde dando tudo de si. Isso tudo per se é ótimo, mas não dá pra deixar de sentir que foi preciso uma bela maquinação do roteiro para chegarmos até aí.
Em outras palavras: temos aí um filme que ameaça sucumbir ante o peso da própria armação. Se há, no entanto, algum poder no final, é porque esses personagens são de carne e osso e coração. Como os melhores lutadores são.













