O Oscar 2005 entrou para a história como uma das disputas mais acirradas. O resultado foi a vitória de “Menina de Ouro” em Melhor Filme e Direção com Clint Eastwood.

Agora, como isso aconteceu? E foi um resultado justo ou não?

O FAVORITO E O AZARÃO

Quando foi anunciado que o Martin Scorsese iria fazer a cinebiografia de Howard Hughes, magnata americano que investiu desde a aviação ao mundo do cinema, todo mundo pensou uma única coisa: ‘agora vem o Oscar’. 

Afinal, o Scorsese já era gigante do cinema americano, o maior diretor do país vivo naquela época, mas, sem um prêmio da Academia. Até então, ele já havia sido indicado em quatro ocasiões: “Touro Indomável” em 1981, “A Última Tentação de Cristo”, em 1989, “Os Bons Companheiros”, em 91, e “Gangues de Nova York”, em 2003. 

Estas duas últimas derrotas, aliás, foram pancadas pesadas porque também se criaram expectativas altas em relação a uma possível vitória. E para “O Aviador”, o Scorsese não mediou esforços para vencer esse Oscar:  contou com um timaço de estrelas da época – Leonardo DiCaprio, Cate Blanchett, Jude Law, Kate Beckinsale, Alan Alda, Alec Baldwin e até a Gwen Stefani do No Doubt -, um orçamento de US$ 100 milhões (o maior dele até então), esbanjava o melhor da qualidade técnica e do luxo de Hollywood e, claro, falava sobre o mundo do cinema e da história dos EUA, assuntos sempre adorados pela Academia. 

Para completar a receita, “O Aviador” era a prioridade da Warner naquela temporada em uma parceria com a Miramax, do então Midas da Academia, Harvey Weinstein. Traduzindo: era Oscar na certa. 

Já “Menina de Ouro” era a antítese disso: uma produção de US$ 30 milhões gravada rapidamente durante o verão norte-americano focada em uma história intimista de superação com um delicado pano de fundo social e concentrada no seu trio de protagonistas. 

Naquela época, o Clint já tinha seu Oscar de Melhor Filme e Direção com “Os Imperdoáveis” e superava um início de século 21 ruim com as indicações de “Sobre Meninos e Lobos” em 2004. Ainda assim, a Warner, também produtora do filme, não se mostrava tão disposta a mudar o foco de suas estratégias na temporada de premiações e dividir a atenção entre “Menina de Ouro” e “O Aviador”. 

A situação só começou a mudar quando o filme foi exibido para críticos e teve uma sessão consagradora no Sindicato de Diretores dos EUA. Ali, os executivos passaram a olhar com outros olhos para “Menina de Ouro”. 

A TEMPORADA DE PREMIAÇÕES 

No início da disputa, “O Aviador” e “Menina de Ouro” foram surpreendidos por um candidato até então fora do radar. 

Dirigido por Alexander Payne e estrelado por Paul Giamatti, “Sideways” começou com tudo recebendo os prêmios dos críticos de Los Angeles e Nova York. Na primeira festa da temporada realizada em 10 de janeiro de 2005, o longa da Fox Searchlight Pictures foi escolhido o melhor filme do Critics Choice Awards. 

Porém, “O Aviador” conseguiu se consolidar nas duas semanas seguintes. 

No dia 16 de janeiro, o longa do Martin Scorsese venceu 3 das 6 categorias que disputava no Globo de Ouro, incluindo Melhor Filme de Drama. Já no dia 22, veio a conquista no PGA, o prêmio do Sindicato dos Produtores, evento que tinha o vencedor coincidido com do Oscar em 4 das 5 últimas edições. Por fim, três dias depois, “O Aviador” sobrou em nas indicações ao Oscar 2005 com 11 nomeações, enquanto “Menina de Ouro” e “Em Busca da Terra do Nunca” ficaram em segundo lugar com distantes sete indicações. 

Nesta série de conquistas, houve um ‘porém’ e ele foi responsável por mudar os rumos da corrida ao Oscar daquele ano. 

As três vitórias de “O Aviador” no Globo de Ouro não incluíam o tão aguardado prêmio para o Martin Scorsese em Melhor Direção. A estatueta foi surpreendentemente para o Clint Eastwood. O cheiro de virada ficou ainda mais forte quando ele voltou a vencer no DGA. 

O SAG de Melhor Elenco e o WGA, o prêmio do Sindicato dos Roteiristas, serviu para consolidar “Sideways” como a terceira força, o possível azarão daquele temporada. Dos grandes eventos pré-Oscar, o Bafta deu novamente a dianteira para “O Aviador” consagrado em Melhor Filme. 

No Oscar, “O Aviador” deu indícios de que poderia dominar a noite ao vencer categorias pesadas como Fotografia e Montagem, além de Atriz Coadjuvante com Cate Blanchett, Figurino e Direção de Arte. Durante grande parte da cerimônia, “Menina de Ouro” tinha apenas a estatueta de Melhor Ator Coadjuvante com Morgan Freeman. Porém, a maré mudou com Hilary Swank levando Melhor Atriz. Os dois últimos prêmios da noite ficaram com Clint Eastwood em Direção e o cobiçado Melhor Filme. 

FOI JUSTO? 

“O Aviador”, sem dúvida, é um belo filme do Scorsese e foge do tradicional das cinebiografias consagradoras. 

Com uma atuação de alto nível do Leonardo DiCaprio, a produção mostra como a genialidade inovadora de Hughes era no mesmo patamar das excentricidades proporcionadas pelo seu Transtorno Obsessivo Compulsivo por limpeza. Essa mistura de luxo trazida na recriação perfeita através dos figurinos e direção de arte com um elenco fantástico com o intimismo perturbador cria um retrato complexo e fascinante. 

Por outro lado, acho que o Scorsese se estende excessivamente na segunda metade e faz o filme perder ritmo. Dentro da filmografia recente dele, vejo “O Aviador” atrás, por exemplo, de “O Irlandês”, “O Lobo de Wall Street” e “Silêncio” ainda que bem superior a “Os Infiltrados”. 

Já “Menina de Ouro” pode ser considerado uma das obras-primas da carreira do Clint Eastwood. 

Remetendo ao melhor do cinema clássico de Hollywood, o Clint consegue criar uma trama enxuta, mas, desenvolvida à perfeição através de personagens ricos interpretados por atores no auge da forma. A história de superação comovente por si só ganha um caráter mais filosófico e socialmente relevante na virada surpreendente da reta final. 

Essa simplicidade na forma paralela a uma profundidade comovente dos personagens é que faz essa virada ser justíssima em um acerto brilhante do Oscar.   

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