“O Contato”, de Vicente Ferraz, é um documentário que expõe os resultados de centenas de anos de colonização na Amazônia, especialmente na vida dos povos indígenas que atualmente residem nas proximidades da cidade de São Gabriel da Cachoeira. O filme acompanha a história da travessia de três grupos distintos: da cidade para a aldeia, da aldeia para a cidade e entre duas aldeias diferentes. Essas não são histórias cotidianas, mas narrativas que revelam os diversos impactos da colonização na vida dessas pessoas. Embora a colonização não seja recente, ela continua a influenciar a religião, a saúde e o modo de viver diário desses povos.

Chama a atenção como “O Contato” se desenvolve: muitos documentários seguem as próprias entrevistas, buscando sempre chegar a um desfecho mais roteirizado, seguindo as convenções do jornalismo ou acompanhando histórias do começo ao fim pelo olhar dos entrevistados. Aqui, algo semelhante ocorre: o fim do filme é a chegada dessas famílias ao seu destino, seja ele a aldeia de origem, a aldeia da família ou a cidade de São Gabriel da Cachoeira. Mas o que acontece entre o ponto de partida e o destino? É aí que “O Contato” ganha sua forma.

Os relatos surgem de maneira bastante orgânica, ainda que pareçam roteirizados em alguns momentos. Eles aparecem no momento certo — como a mãe que visita o convento onde estudou durante a infância ou que conta à filha sobre seus medos de infância, relacionados aos homens brancos que sequestravam indígenas. Além disso, há os relatos dos mais velhos, que vivenciaram uma colonização mais intensa e violenta. São relatos muitas vezes em línguas diferentes, que expressam a dor desses povos e os impactos da colonização, tudo fluindo de maneira natural e acompanhando o percurso dessas pessoas.

Durante o filme, vemos muitas imagens de arquivo que registram contatos com povos indígenas, mas esses registros diferem daqueles feitos por Vicente Ferraz. As imagens antigas têm um olhar mais ameaçador, enquanto Vicente tenta criar uma perspectiva mais neutra, como se fosse invisível. No entanto, sabemos que ele não é. Existe um ar de ficção em “O Contato” — muitos diálogos e ações parecem roteirizados — mas isso não confere um tom falso ao documentário, pois ainda se percebe a honestidade dos relatos. A encenação é apenas um elemento para o desenvolvimento da história que não a atrapalha nem a torna menos verídica.

Há, de fato, um esforço do diretor em distanciar-se dos registros mais tradicionais que retratam a vida dos povos indígenas, especialmente ao intercalar cenas do filme com imagens de arquivo que carregam um caráter mais colonizador. Sabemos que, ainda hoje, muitos filmes, principalmente documentários, mantêm o objetivo do homem branco de “mostrar a verdade” sobre esses povos, limitando-se ao próprio olhar e, às vezes, criticando a própria cultura indígena, sem compreender que elementos da colonização, como a religião católica, já estão presentes na cultura desses povos, entre outros aspectos.

Mas será que o diretor consegue se distanciar completamente disso tudo? Alguns poderiam argumentar que apenas um diretor indígena poderia alcançar tal distanciamento, já que, mesmo em um documentário, a visão do realizador é a que prevalece no resultado final. Porém, ao tentar manter-se neutro e minimizar suas interferências no material, Vicente Ferraz demonstra que é possível, sim, afastar-se dessa perspectiva colonizadora.

Talvez o único problema seja que, ao intercalar as três histórias sem recorrer aos elementos mais tradicionais do documentário, como a narração, o resultado possa se tornar um pouco confuso em alguns momentos. Isso não diminui o impacto e a reflexão final do filme, mas pode tornar a experiência um tanto desorientadora. Contudo, essa escolha estilística também contribui para a autenticidade do filme, desafiando as convenções do gênero e convidando o público a se engajar de forma mais ativa e reflexiva na narrativa apresentada.